O El Niño continua ativo e em processo de intensificação no Oceano Pacífico Equatorial. O cenário mais recente já não é apenas de possibilidade de formação: as águas do Pacífico central e oriental estão mais quentes que o normal e os indicadores oceânicos e atmosféricos confirmam a presença do fenômeno.
Em boletim divulgado no fim de agosto, o Centro de Previsão Climática da NOAA informou que o El Niño deverá se fortalecer até o fim de 2026. A projeção oficial indicava 97% de probabilidade de continuidade do fenômeno até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte.
Pacífico apresenta aquecimento expressivo
O acompanhamento do International Research Institute for Climate and Society, ligado à Universidade Columbia, apontou que a média sazonal da região Niño 3.4 chegou a aproximadamente 1,51°C acima do normal entre maio e julho. O valor mensal de julho alcançou 2,03°C, enquanto medições semanais de agosto chegaram a níveis ainda mais elevados.
Esses números indicam um evento forte e com possibilidade de atingir a categoria muito forte. No entanto, a intensidade definitiva só poderá ser estabelecida depois da análise das médias observadas ao longo de vários meses. Uma medição semanal isolada não basta para classificar todo o episódio.
Modelos apontam persistência em 2027
O conjunto de 26 modelos analisados pelo IRI em agosto indicava probabilidade de 100% de manutenção do El Niño entre o trimestre agosto-outubro de 2026 e fevereiro-abril de 2027. A estimativa caía para 97% em março-maio e para 78% em abril-junho de 2027.
Esses percentuais representam o resultado de modelos e não uma garantia de impactos específicos. As simulações concordam sobre a permanência do aquecimento, mas ainda apresentam diferenças quanto ao momento e à intensidade do pico.
Possíveis efeitos no Brasil
No Brasil, o El Niño costuma favorecer chuvas acima da média em áreas da Região Sul e reduzir as precipitações em partes do Norte e do Nordeste. Temperaturas mais elevadas também podem aumentar a ocorrência de ondas de calor e criar condições favoráveis a incêndios florestais em regiões que enfrentem tempo seco.
O INMET ressaltou, porém, que os efeitos não são iguais em todo evento. A distribuição das chuvas e das temperaturas depende também da temperatura do Atlântico, de frentes frias, sistemas de baixa pressão, umidade disponível e outras oscilações oceânicas e atmosféricas.
O que isso pode significar para Santos
Para Santos e a Baixada Santista, não é correto afirmar antecipadamente que o El Niño provocará uma enchente, ressaca ou onda de calor específica. O fenômeno altera o pano de fundo climático, mas os eventos locais dependem da combinação entre chuva, vento, maré, ondas, drenagem urbana e condições do oceano próximas ao litoral.
O acompanhamento mais seguro deve ser feito por meio das previsões de curto prazo da Defesa Civil, do INMET e dos órgãos oceanográficos. Alertas emitidos com poucos dias de antecedência têm maior utilidade para decisões imediatas do que projeções climáticas feitas para vários meses.
Evento forte não significa desastre inevitável
Um El Niño muito forte aumenta a possibilidade de anomalias climáticas, mas não permite prever sozinho onde ocorrerão desastres. Enchentes e deslizamentos dependem também da ocupação do solo, da infraestrutura de drenagem, da vulnerabilidade das comunidades e da capacidade de prevenção das cidades.
Da mesma forma, períodos de estiagem causam impactos diferentes conforme a disponibilidade de água, a conservação dos reservatórios e o planejamento de cada região. Por isso, a informação climática deve ser usada para fortalecer a prevenção, e não para sustentar previsões alarmistas sem base local.
Monitoramento continuará nos próximos meses
O comportamento do fenômeno será reavaliado a cada novo boletim. As projeções disponíveis em setembro apontam para fortalecimento até o fim de 2026 e persistência no início de 2027, mas a data exata do pico e os impactos regionais continuam sujeitos a atualizações.
Fontes: discussão diagnóstica da NOAA, previsão de agosto do IRI, orientações do INMET e nota técnica conjunta divulgada pelo INPE.