O Governo do Estado de São Paulo iniciou uma intervenção emergencial no Estreito do Melão, na Ilha do Cardoso, em Cananéia, para reduzir o avanço da erosão costeira e reforçar uma das faixas de areia mais vulneráveis do litoral sul paulista.
Com investimento estimado em R$ 12 milhões, a obra é conduzida pela Fundação Florestal em parceria com a SP Águas. O projeto prevê dragagem, reposicionamento controlado de sedimentos e reforço do cordão arenoso que separa o oceano do sistema estuarino. O prazo inicialmente informado é de aproximadamente nove meses.
Por que o Estreito do Melão preocupa?
O Estreito do Melão é uma faixa arenosa estreita que ajuda a manter separadas as águas do mar aberto e do Canal do Ararapira. A região está sujeita à ação contínua das ondas, marés, correntes e ao transporte de areia. Quando a saída de sedimentos supera a reposição natural, o terreno perde largura e se torna mais vulnerável a novos episódios de erosão.
Uma portaria da Fundação Florestal classificou o local como zona de risco. O documento relaciona o agravamento da erosão à abertura de uma nova barra em 2018 e aos monitoramentos que identificaram redução rápida da espessura do cordão arenoso.
A abertura de uma barra é uma mudança física importante: surge uma nova ligação entre o estuário e o oceano, alterando a circulação da água, das correntes e dos sedimentos. Essas transformações podem acelerar a erosão em alguns pontos e favorecer o acúmulo de areia em outros.
Como funciona a intervenção?
A dragagem retira areia de áreas definidas pelos estudos técnicos. Em seguida, o material é reposicionado para recompor e ampliar o trecho desgastado. O projeto também utiliza estruturas geotêxteis preenchidas com areia, conhecidas como geotubos, para ajudar a estabilizar a faixa e reduzir a perda de sedimentos.
Esse tipo de solução busca trabalhar com o material disponível no próprio sistema costeiro. Ainda assim, qualquer movimentação de sedimentos precisa considerar a direção das correntes e o equilíbrio entre os diferentes trechos da costa, pois uma intervenção localizada pode modificar o transporte de areia nas proximidades.
Por esse motivo, o resultado não deve ser medido apenas pela largura alcançada logo após a obra. Será necessário acompanhar a resposta do terreno durante as marés, frentes frias e ressacas, especialmente nos meses de maior agitação marítima.
Comunidades e ecossistemas estão expostos
A Ilha do Cardoso é protegida como parque estadual e abriga comunidades caiçaras e indígenas que dependem do território, da pesca, da navegação e dos recursos naturais. Um eventual rompimento em um novo ponto poderia alterar rotas de embarcações, dificultar a mobilidade e afetar áreas utilizadas tradicionalmente pelas famílias.
Os riscos não se limitam às moradias. A mudança na entrada de água salgada e na circulação do estuário pode atingir manguezais, áreas de reprodução de espécies e outros ambientes sensíveis. Essas consequências dependem do local e da forma de uma eventual abertura, por isso não podem ser previstas com precisão sem acompanhamento técnico contínuo.
Obra reduz o risco, mas não encerra o problema
A recomposição do cordão arenoso pretende ganhar tempo e diminuir a vulnerabilidade imediata. Isso não significa que a Ilha do Cardoso ficará definitivamente protegida ou que a linha de costa permanecerá imóvel.
Um estudo acadêmico disponibilizado pela Universidade Federal do Paraná descreve mudanças morfológicas depois da abertura de 2018 e aponta a possibilidade de outra conexão com o oceano nos próximos anos. A projeção é um cenário científico, não uma data garantida, e poderá mudar conforme novos levantamentos e intervenções forem realizados.
Além da obra física, especialistas e moradores defendem monitoramento permanente, planejamento para situações de emergência e participação das comunidades nas decisões. Essas medidas são importantes porque a erosão costeira envolve processos naturais de longo prazo e pode responder de maneiras diferentes a cada temporada de ondas e ressacas.
O que acompanhar daqui para frente?
- a evolução da largura do cordão arenoso;
- o comportamento dos sedimentos após ressacas e marés elevadas;
- possíveis alterações na circulação do estuário e nos manguezais;
- os efeitos sobre a pesca, a navegação e a mobilidade das comunidades;
- os relatórios técnicos produzidos durante e depois da intervenção.
O caso da Ilha do Cardoso mostra que conter a erosão não significa simplesmente bloquear o mar. A eficácia dependerá da adaptação da obra à dinâmica costeira, do monitoramento ambiental e da capacidade de ajustar as medidas quando surgirem novas evidências.