Conter o mar ou recuar? O futuro das cidades costeiras

À medida que o mar avança sobre áreas urbanizadas, uma pergunta cada vez mais difícil se impõe às cidades costeiras: até onde vale a pena construir obras para segurar o oceano — e quando é necessário afastar pessoas e estruturas das áreas de maior risco?

Durante décadas, a reação mais comum diante da erosão foi construir muros, espigões, enrocamentos e outras barreiras. Essas estruturas podem proteger avenidas, edifícios e equipamentos públicos. Entretanto, nenhuma obra elimina a dinâmica natural da praia. Em alguns casos, a intervenção apenas transfere o problema para outro trecho do litoral.

No outro extremo está o recuo planejado, que prevê a retirada gradual de construções e a interrupção de novas ocupações em locais onde a proteção permanente seria tecnicamente inviável, ambientalmente prejudicial ou cara demais.

Não existe uma resposta única. A escolha depende das características de cada praia, da ocupação urbana, do movimento dos sedimentos, do valor social das áreas ameaçadas e dos recursos disponíveis para implantação e manutenção das medidas de adaptação.

A praia não é uma estrutura imóvel

Uma praia muda constantemente. Ondas, correntes, ventos, marés e tempestades transportam areia ao longo da costa e entre a parte seca e a parte submersa. Em determinados períodos, a faixa de areia pode aumentar. Em outros, pode diminuir.

O problema se agrava quando a urbanização ocupa o espaço necessário para esse movimento. A praia tenta recuar, mas encontra prédios, avenidas, calçadões e muros. Esse processo é conhecido como confinamento costeiro: de um lado está o mar; do outro, uma cidade que não pode se deslocar. Com o tempo, a faixa de areia pode ficar cada vez mais estreita ou até desaparecer.

Por isso, antes de escolher uma solução, é necessário entender as causas locais da erosão. Uma obra adequada para uma praia pode produzir resultados ruins em outra.

Obras de contenção: proteção necessária, mas não definitiva

Muros, enrocamentos, espigões e quebra-mares são empregados para reduzir a força das ondas ou reter sedimentos. Em trechos densamente urbanizados, essas estruturas podem ser indispensáveis para proteger vias, redes de água e esgoto, imóveis e equipamentos públicos.

Porém, obras rígidas interferem no transporte natural de areia. Um espigão pode provocar acúmulo de sedimentos de um lado e falta de areia do outro. Um muro pode proteger a infraestrutura localizada atrás dele, mas também intensificar a reflexão das ondas e contribuir para a perda da praia à sua frente.

Isso não significa que toda contenção seja inadequada. Significa que a obra precisa ser projetada com base em estudos de ondas, correntes, batimetria e balanço sedimentar, além de ser acompanhada por monitoramento contínuo.

Santos: geobags e reaproveitamento da areia

Na Ponta da Praia, em Santos, um projeto-piloto implantado em 2018 utilizou 49 grandes bolsas geotêxteis preenchidas com aproximadamente 7 mil metros cúbicos de areia. A estrutura submersa em formato de “L” foi projetada para reduzir o impacto das ondas e favorecer a retenção de sedimentos.

Geobags instalados no mar para reduzir a erosão costeira
Geobags formam uma barreira submersa que ajuda a reduzir a energia das ondas e reter areia.

O caso de Santos mostra uma solução intermediária: em vez de uma grande barreira convencional de concreto, foram utilizados geobags associados ao monitoramento da praia. Inspeções posteriores identificaram avarias em algumas bolsas, reforçando que mesmo soluções consideradas menos agressivas precisam de manutenção.

A cidade também reaproveita parte da areia que se acumula nas saídas dos canais. O material retirado, principalmente das proximidades dos canais 1, 2 e 3 — e, em algumas ocasiões, do Canal 4 — é transportado por caminhões e redistribuído em trechos da orla. Essa operação ajuda a recompor a faixa de areia, mas precisa ser repetida, pois as ondas e correntes continuam movimentando os sedimentos.

Engordamento de praia: ganhar espaço exige manutenção

Outra estratégia é a alimentação artificial, conhecida popularmente como engordamento da praia. A técnica retira areia de uma área autorizada e a deposita na orla para aumentar a largura da faixa costeira.

Máquinas e tubulações realizando obra de engordamento da faixa de areia
Obra de engordamento amplia artificialmente a faixa de areia por meio da deposição de sedimentos.

Em Balneário Camboriú, a Praia Central passou por um grande alargamento. A intervenção ampliou uma faixa que, em muitos pontos, tinha aproximadamente 25 metros para cerca de 70 metros. Além de criar uma área de lazer maior, a nova faixa de areia passou a funcionar como proteção adicional entre o mar e a cidade.

Em Matinhos, no Paraná, foram depositados cerca de 3 milhões de metros cúbicos de areia ao longo de 6,3 quilômetros. Em alguns trechos, a ampliação chegou a 100 metros. O projeto também incluiu drenagem, guias-correntes, estruturas de estabilização, urbanização e plantio de vegetação nativa.

Esses exemplos mostram que o engordamento pode recuperar praias e ampliar a proteção da orla. Mas a areia adicionada também entra na dinâmica costeira e pode ser transportada. Por isso, a técnica não deve ser apresentada como uma solução eterna: ela pode exigir reposições futuras e acompanhamento permanente.

Dunas cobertas por vegetação natural junto à praia
Dunas e vegetação costeira ajudam a armazenar areia e reduzir os impactos das ondas. Foto: Karel Delvoije/Unsplash.

Dunas, restingas e manguezais também protegem a costa

Nem toda defesa costeira precisa ser construída com pedras, concreto ou grandes volumes de areia dragada. Dunas, vegetação de restinga, manguezais e outros ambientes naturais ajudam a dissipar a energia das ondas, armazenar sedimentos e reduzir impactos de tempestades e alagamentos.

Quando há espaço disponível, recuperar esses ecossistemas pode ser mais sustentável e mais barato do que construir novas barreiras. Cercas captoras de areia, revegetação e controle da circulação de veículos e pedestres são algumas medidas capazes de favorecer a recomposição das dunas.

Mas soluções baseadas na natureza também têm limites. Em áreas onde a urbanização já chegou à beira-mar, pode não existir espaço suficiente para que dunas e restingas se recuperem. Nesses casos, será necessário combinar diferentes estratégias.

Atafona mostra o custo de agir tarde

Atafona, no município de São João da Barra, no Rio de Janeiro, tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da erosão costeira no Brasil. Há décadas, o mar destrói ruas, casas e áreas de convivência próximas à foz do Rio Paraíba do Sul. Estimativas recorrentes apontam que mais de 500 construções já foram atingidas ou destruídas.

O caso envolve uma combinação complexa de fatores, entre eles a dinâmica da desembocadura, a redução do transporte de sedimentos do rio e a ação das ondas e correntes. Atafona demonstra que, quando a ocupação permanece em uma área de erosão intensa durante décadas, as possibilidades de intervenção ficam mais difíceis, caras e socialmente dolorosas.

Construir uma grande obra pode não resolver todas as causas do problema. Não fazer nada, por outro lado, significa permitir que moradores continuem expostos. É justamente nesse ponto que o recuo planejado entra no debate.

Recuar não significa abandonar

O recuo planejado consiste em remover ou transferir, de forma organizada e antecipada, pessoas, imóveis e infraestruturas situadas em áreas onde o risco tende a aumentar. Também pode incluir a proibição de novas construções, a criação de faixas de proteção e a compra ou desapropriação de propriedades ameaçadas.

Essa estratégia costuma enfrentar forte resistência. Uma casa não possui apenas valor financeiro: ela carrega memórias, vínculos familiares e relações com o bairro. Além disso, surgem perguntas difíceis. Quem define quais áreas deverão ser desocupadas? Quem paga pelas indenizações? Para onde irão os moradores? Como evitar que famílias de menor renda arquem com a maior parte do prejuízo?

Sem regras claras, participação da comunidade e garantia de moradia adequada, o recuo pode aprofundar desigualdades. Quando planejado com antecedência, porém, ele pode evitar remoções emergenciais depois que o mar já destruiu imóveis e interrompeu serviços essenciais.

Quem deve pagar pela adaptação?

Proteger o litoral envolve custos públicos e privados. Grandes obras consomem milhões de reais e continuam exigindo inspeção, reparos e reposição de areia. O recuo também custa caro, pois pode envolver indenizações, reassentamento, aquisição de terrenos e reconstrução de infraestrutura.

O custo da inação, entretanto, também precisa entrar na conta. Ressacas podem destruir avenidas, comprometer redes de saneamento, reduzir o turismo e exigir obras emergenciais repetidas. Adiar decisões pode transformar um problema administrável em uma crise muito mais cara.

Planejamento costeiro não deve começar apenas depois de uma ressaca. Mapear áreas vulneráveis, impedir novas ocupações de risco e reservar espaço para a movimentação natural da praia são medidas menos visíveis, mas fundamentais.

A solução mais segura é combinar estratégias

O futuro das cidades costeiras não será decidido por uma disputa simples entre “conter” ou “recuar”. Em muitos lugares, as duas estratégias precisarão coexistir.

Áreas urbanas essenciais podem exigir obras de proteção. Praias com disponibilidade de sedimentos podem receber alimentação artificial. Trechos ainda preservados devem manter dunas, restingas e manguezais. Onde a erosão for persistente e a defesa física se mostrar inviável, o recuo planejado precisa deixar de ser um assunto proibido.

A resposta mais responsável combina quatro ações: proteger o que é estratégico, adaptar a infraestrutura, restaurar as defesas naturais e recuar onde permanecer representar um risco crescente.

O mar não precisa vencer todas as cidades. Mas as cidades também não podem continuar agindo como se fossem capazes de imobilizar o oceano para sempre.


Sobre o autor

Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas, e criador do canal Santos em Movimento no YouTube.

Fontes e referências

Imagem interna: Karel Delvoije/Unsplash.

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