É uma situação comum: alguém se atrasa para um compromisso e rapidamente pensamos que aquela pessoa é irresponsável. Mas, quando somos nós que chegamos atrasados, a explicação costuma ser diferente: havia trânsito, surgiu um imprevisto ou alguma coisa aconteceu no caminho.
Quando outra pessoa comete um erro, podemos enxergar incompetência, irresponsabilidade ou falta de consideração. Quando cometemos o mesmo erro, conhecemos todas as circunstâncias que nos levaram até ele.
Por que isso acontece?
A psicologia social estuda há décadas como as pessoas procuram explicações para o próprio comportamento e para o comportamento dos outros. E as pesquisas mostram que nossos julgamentos nem sempre são tão objetivos quanto imaginamos.
Para aprofundar a leitura: Castigo, provação ou perseguição? Como nossas crenças mudam a interpretação dos fatos e Quando o cliente vira caixa: quem ganha com a automação?.
O comportamento não conta toda a história
Um dos conceitos importantes para entender esse fenômeno é o chamado viés de correspondência.
Os psicólogos Daniel Gilbert e Patrick Malone descreveram esse viés como a tendência de inferir características relativamente permanentes de uma pessoa a partir de seu comportamento, mesmo quando a situação pode explicar parte importante daquilo que aconteceu.
Em outras palavras, podemos observar uma atitude e rapidamente transformá-la em uma característica da pessoa.
Alguém não respondeu uma mensagem? “É arrogante.” Um motorista cometeu um erro? “Não sabe dirigir.” Um funcionário falhou em uma tarefa? “É incompetente.”
O problema é que nem sempre sabemos o que estava acontecendo naquele momento.
Gilbert e Malone apontaram diferentes mecanismos que podem contribuir para esse tipo de julgamento, incluindo não perceber completamente as circunstâncias e fazer correções insuficientes depois de formar uma primeira impressão. O trabalho pode ser consultado na base PubMed.
Isso não significa que o comportamento individual nunca revele características pessoais. Significa apenas que situação e personalidade podem contribuir simultaneamente, e frequentemente temos informações incompletas para saber o peso de cada uma.
Quando somos nós, conhecemos os bastidores
Existe uma diferença fundamental entre observar outra pessoa e observar a nós mesmos: temos acesso direto a muito mais informações sobre nossa própria situação.
Sabemos que dormimos mal, que recebemos uma notícia preocupante, que enfrentamos trânsito, que estávamos sob pressão ou que entendemos determinada situação de maneira diferente. Ao observar outra pessoa, muitas dessas informações estão escondidas.
Durante décadas, uma hipótese conhecida como assimetria ator-observador propôs que as pessoas tenderiam a explicar o próprio comportamento pelas circunstâncias e o comportamento dos outros pelas características pessoais.
Mas existe uma ressalva científica importante.
O psicólogo Bertram Malle analisou 173 estudos publicados sobre o assunto e concluiu que essa diferença não aparece de maneira geral e uniforme. Ela depende de fatores como o tipo de situação, a relação entre as pessoas e se o acontecimento foi positivo ou negativo. A meta-análise está disponível na PubMed.
Portanto, a ciência recomenda mais cautela do que a frase popular “quando sou eu, é a situação; quando é o outro, é o caráter”. O fenômeno pode acontecer, mas não deve ser tratado como uma regra universal.
Quando o sucesso é nosso e a culpa é das circunstâncias
Outro mecanismo ajuda a entender nossos julgamentos: o viés de autosserviço.
Em determinadas situações, existe uma tendência de relacionarmos resultados positivos às nossas próprias capacidades e resultados negativos a fatores externos.
Conseguimos uma promoção? “Trabalhei muito e mereci.” Não conseguimos? “O chefe já tinha escolhido outra pessoa.” Ganhamos uma discussão? “Meus argumentos eram melhores.” Perdemos? “A outra pessoa não quis entender.”
Uma meta-análise conduzida pelos pesquisadores W. Keith Campbell e Constantine Sedikides encontrou evidências desse mecanismo e indicou que situações que ameaçam a imagem que temos de nós mesmos podem aumentar o viés de autosserviço.
Isso ajuda a compreender por que algumas discussões deixam de ser apenas discussões sobre fatos. Às vezes, reconhecer um erro significa também enfrentar uma ameaça à imagem que construímos de nós mesmos.
Não fazemos isso necessariamente de propósito
É importante não transformar os vieses psicológicos em uma acusação moral.
Ter um viés não significa necessariamente mentir ou manipular conscientemente os acontecimentos. Boa parte desses processos pode ocorrer sem uma decisão deliberada.
Nós interpretamos constantemente enormes quantidades de informações e precisamos tomar decisões rapidamente. Atalhos mentais podem ajudar nesse processo, mas também podem produzir erros de julgamento.
Por isso, conhecer esses mecanismos não serve apenas para identificar o comportamento dos outros. Talvez sua principal utilidade seja perceber quando nós mesmos podemos estar fazendo exatamente a mesma coisa.
O mesmo fato pode ganhar explicações completamente diferentes
Imagine duas pessoas enfrentando dificuldades financeiras.
Se não gostamos de uma delas, podemos pensar: “Gastou demais”, “não soube administrar” ou “está pagando pelas próprias escolhas”. Se gostamos da outra, talvez procuremos imediatamente circunstâncias externas: “a economia está difícil”, “teve despesas inesperadas” ou “passou por uma situação complicada”.
Pode ser que uma explicação esteja correta. Pode ser que ambas estejam parcialmente corretas. Ou nenhuma delas.
A questão é: por que procuramos determinadas explicações para algumas pessoas e outras explicações para outras?
Redes sociais ampliam julgamentos rápidos
Nas redes sociais, muitas vezes conhecemos apenas alguns segundos de uma história.
Uma fotografia, um vídeo curto, uma frase ou um comentário podem ser suficientes para que milhares de pessoas construam conclusões sobre o caráter de alguém. O contexto pode aparecer depois — quando o julgamento já aconteceu.
Isso cria uma situação especialmente favorável a interpretações precipitadas: temos pouco conhecimento sobre as circunstâncias, mas somos convidados constantemente a formar uma opinião.
Antes de julgar, uma pergunta pode mudar tudo
Conhecer esses mecanismos não significa abandonar julgamentos ou acreditar que ninguém é responsável pelas próprias escolhas. Responsabilidade individual continua existindo.
A questão é reconhecer que comportamento e circunstâncias precisam ser analisados conjuntamente.
Uma pergunta simples pode ajudar: se eu tivesse feito exatamente a mesma coisa, usaria a mesma explicação que estou usando para julgar essa pessoa?
E existe uma segunda pergunta igualmente importante: se essa atitude tivesse sido praticada por alguém de quem gosto, eu a interpretaria da mesma maneira?
As respostas podem revelar mais sobre nossos próprios critérios do que sobre a pessoa que estamos julgando.
Análise de Sergio Martins
Talvez um dos aspectos mais interessantes do comportamento humano seja nossa facilidade para perceber contradições nos outros e nossa dificuldade para identificá-las em nós mesmos.
É muito fácil observar uma atitude de fora e imaginar que sabemos por que aquela pessoa agiu daquela maneira. O problema é que vemos o comportamento, mas nem sempre conhecemos as circunstâncias.
Quando somos nós os envolvidos, acontece o contrário: conhecemos cada detalhe que antecedeu nossa decisão e temos uma explicação para praticamente tudo.
Isso não significa que devemos justificar qualquer comportamento. Pessoas precisam assumir responsabilidade por suas escolhas.
Mas existe uma diferença entre responsabilizar alguém depois de conhecer os fatos e condená-lo a partir de uma interpretação construída com informações incompletas.
Talvez um exercício importante seja aplicar a nós mesmos o mesmo rigor que aplicamos aos outros — e oferecer aos outros pelo menos parte da compreensão que normalmente reservamos para nós mesmos.
Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental e pós-graduado em Sustentabilidade e Políticas Públicas.
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