Transformar uma garrafa descartada em matéria-prima para a construção é uma ideia atraente. Mas o uso de vidro no concreto precisa responder a duas perguntas: o material atende às exigências da aplicação e a mudança reduz os impactos do processo?
As pesquisas mostram possibilidades reais, acompanhadas de limites. O resultado de uma mistura ensaiada em laboratório não é uma receita que possa ser aplicada a qualquer bloco, parede ou estrutura.

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O que pode ser substituído?
O vidro pode ser estudado em diferentes tamanhos de partículas e funções. Algumas pesquisas o utilizam como substituto parcial da areia, que é um agregado. Outras avaliam pó de vidro em materiais cimentícios. Substituir areia e substituir cimento são alterações diferentes e não devem ser confundidas.
Um trabalho publicado em Scientific Reports em 2024 investigou tamanhos de partículas e proporções de vidro. O desempenho variou conforme a combinação. Isso reforça que o controle da granulometria e da dosagem faz parte da avaliação técnica.
O que mostrou a pesquisa brasileira de 2025
Marcos Ferreira de Souza e outros pesquisadores avaliaram blocos de concreto seco com substituição de areia por pó de vidro em quatro proporções: 0%, 25%, 50% e 75%. O estudo foi publicado em Environmental Science and Pollution Research.
O resumo informa aumentos de resistência média à compressão entre 32% e 35%, em comparação com a mistura de referência. A maior resistência média chegou a 4,35 MPa aos 56 dias, na mistura com 50% de substituição.
Há um detalhe decisivo: somente a mistura com 50% atingiu a resistência característica mínima citada pelos autores, com 3,62 MPa. A resistência média e a característica são informações diferentes. O aumento percentual, sozinho, não demonstra atendimento a todos os requisitos de um produto.
Por que não existe uma proporção universal?
As condições de produção, o tamanho das partículas e a composição da mistura influenciam o desempenho. No trabalho de 2024, mudanças na proporção e no tamanho do vidro produziram resultados diferentes para resistência e durabilidade.
Consequentemente, uma formulação bem-sucedida não autoriza substituir materiais sem ensaios e especificação. É preciso saber qual produto foi estudado, em que idade ele foi testado e para qual aplicação os resultados são válidos.
A questão ambiental por trás da areia
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente destaca a importância de gerir a extração e o uso da areia. O recurso participa da construção, mas também integra ambientes naturais e funções dos ecossistemas.
Usar um material reciclado pode reduzir a demanda por matéria-prima virgem em determinada aplicação. Essa possibilidade deve ser examinada junto com a origem do resíduo, os deslocamentos, o processamento e a vida útil do produto final.
Como avaliar se a solução vale a pena
Do ponto de vista da gestão ambiental, uma avaliação deve acompanhar o percurso completo: de onde vem o vidro, como é separado, quanta energia seu preparo exige, quanto material natural é evitado e qual destino teria o resíduo sem esse uso.
Também é necessário comparar produtos com a mesma função. Uma alternativa que economiza agregado, mas exige trocas frequentes, não pode ser considerada superior apenas por conter material reciclado. O benefício precisa ser demonstrado para as condições do projeto.
O que o leitor deve guardar
O vidro no concreto é uma possibilidade de aproveitamento de resíduos sustentada por pesquisas específicas. Sua adoção responsável depende de ensaios, controle de qualidade, especificação técnica e comparação ambiental. A melhor pergunta não é “vidro sempre melhora o concreto?”, e sim “qual vidro, em qual mistura, para qual uso e com quais resultados?”.
Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas, e criador do Santos em Movimento.
Fontes e referências: Souza e colaboradores, 2025 — pó de vidro em blocos de concreto, resumo científico; Scientific Reports, 2024 — tamanho das partículas, resistência e durabilidade; PNUMA — Sand and Sustainability, 2022.
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