A proteção da orla de Santos também passa pelas plantas que crescem na areia. O Parque Jundu, previsto para o José Menino, propõe preservar e recuperar vegetação de restinga em uma praia urbanizada. A iniciativa abre uma discussão importante: quanto essa vegetação pode contribuir para conservar a faixa arenosa e quais problemas exigem outras respostas?
Para avaliar o projeto, é preciso distinguir três coisas: a recuperação do ecossistema, a retenção de sedimentos e a proteção diante de eventos extremos. Elas se relacionam, mas o avanço de uma não comprova automaticamente o sucesso das outras.

Onde ficará o Parque Jundu e em que fase está
Segundo a Prefeitura de Santos, a área fica entre a divisa com São Vicente e o Novo Quebra-Mar, no José Menino, em frente aos edifícios conhecidos como Pé na Areia. Em abril de 2026, o Município informou o início de limpeza de resíduos, retirada de vegetação invasora e mapeamento para o cercamento.
A atualização divulgada por A Tribuna em 15 de outubro de 2026, com informações da Prefeitura, aponta que o cercamento estava em fase de orçamento. A expectativa informada era concluir essa etapa até o fim daquele mês. Esse prazo se refere à preparação relatada, sem confirmar a inauguração ou a conclusão integral do parque.
A reportagem também registra a avaliação de medidas compensatórias de empresas para apoiar o enriquecimento com espécies nativas e o plano de manejo. Isso indica uma possibilidade em estudo; não permite afirmar que os recursos ou todas as ações já estejam garantidos.

Como o jundu ajuda a conservar a areia
Jundu é o nome usado para uma comunidade de plantas da restinga, incluindo vegetação rasteira e de pequeno porte adaptada à faixa arenosa costeira. Não se trata de uma única espécie. O Plano de Ação Climática de Santos inclui sua recuperação entre as ações de resiliência da zona costeira.
As plantas interferem no movimento da areia: a parte que fica acima do solo cria obstáculos ao vento e favorece a deposição de grãos, enquanto raízes e outros órgãos subterrâneos ajudam a manter os sedimentos agregados. Esse processo pode reduzir a mobilidade da areia e colaborar com a estabilidade do ambiente.
Uma pesquisa publicada na Scientific Reports em 2024, realizada em dunas da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, mostra que o manejo e a forma do terreno influenciam as comunidades vegetais e a biomassa subterrânea, com implicações para a resistência à erosão. O estudo ajuda a entender os mecanismos, mas não mediu o desempenho do Parque Jundu em Santos.
A conservação também tem valor para a biodiversidade. A vegetação oferece abrigo e recursos para organismos associados à praia. Por isso, recuperar a restinga deve envolver espécies adequadas ao ambiente e acompanhamento ecológico, além da preocupação com a areia.
Por que a vegetação tem limites nas ressacas
A proteção oferecida por um sistema de praia e vegetação depende da largura e da altura do terreno, da disponibilidade de sedimentos, das espécies presentes e da intensidade do evento. Raízes e cobertura vegetal podem aumentar a resistência, mas não tornam a faixa costeira imune à ação das ondas.
Como explica a NOAA, agência norte-americana de oceanos e atmosfera, dunas são estruturas dinâmicas: podem perder sedimentos durante tempestades e se recompor em períodos mais calmos. A existência de vegetação, isoladamente, não informa o volume de areia disponível nem a capacidade de recuperação depois de sucessivas ressacas.
Não é possível atribuir ao parque uma porcentagem de redução da erosão ou garantir proteção aos imóveis sem medições locais. O benefício esperado precisa ser acompanhado ao longo do tempo, inclusive antes e depois de eventos de mar agitado.
Jundu e barreira submersa: qual é a diferença?
O Parque Jundu e a barreira da Ponta da Praia atuam em locais e processos diferentes. A primeira iniciativa trabalha com a recuperação da vegetação. A segunda utiliza uma estrutura de engenharia. A documentação do projeto-piloto descreve uma barreira em L formada por recipientes de geotêxtil preenchidos com areia, destinada a reduzir a ação das ondas e favorecer a retenção de sedimentos.
| Aspecto | Parque Jundu | Barreira submersa |
|---|---|---|
| Onde atua | Na faixa arenosa com vegetação, no José Menino. | Na área submersa da Ponta da Praia. |
| Mecanismo principal | Recuperar plantas nativas que ajudam a reter e estabilizar areia. | Interferir na propagação das ondas e no transporte de sedimentos. |
| Acompanhamento necessário | Vegetação, espécies invasoras e mudanças no terreno. | Condição da estrutura e resposta da praia, inclusive nos trechos vizinhos. |
A comparação não permite escolher uma receita única para toda a cidade. Uma estratégia pode ser adequada a um trecho e insuficiente em outro. Na análise do Santos em Movimento, o planejamento deve integrar os diferentes setores da orla, com objetivos claros para cada intervenção.
Aprofunde essa discussão no artigo Como funciona a barreira submersa de Santos e seus impactos?
O que fará diferença na gestão do parque
Na avaliação do Santos em Movimento, o cercamento será um meio de organizar a proteção da vegetação. O resultado deverá ser demonstrado por indicadores públicos. Cinco pontos merecem acompanhamento:
- Delimitação e acesso: informar a área protegida e organizar a passagem dos frequentadores, com atenção à acessibilidade.
- Diagnóstico inicial: registrar cobertura vegetal, espécies e características do terreno para permitir comparações futuras.
- Manejo contínuo: definir responsáveis, recursos e critérios técnicos para controlar invasoras e recuperar falhas de vegetação.
- Monitoramento da areia: repetir medições em pontos fixos e após ressacas, distinguindo mudanças sazonais de tendências persistentes.
- Transparência: divulgar cronograma, custos, medidas compensatórias efetivamente assumidas e resultados, incluindo eventuais dificuldades.
Esses são critérios de acompanhamento propostos neste artigo, não uma lista de entregas já confirmadas pela Prefeitura. Eles ajudam a transformar uma intenção de preservação em uma política pública que possa ser avaliada pela população.
Como quem frequenta a praia pode colaborar
Respeitar as áreas delimitadas, usar os acessos indicados, recolher resíduos e evitar arrancar plantas são atitudes compatíveis com a recuperação ambiental. A identificação de espécies e qualquer retirada de vegetação devem ficar a cargo da equipe responsável pelo manejo.
Em Santos, a Prefeitura já documentava o reaparecimento do jundu entre os canais 1 e 2 em 2024. Esse registro também ajuda a desfazer a ideia de que toda vegetação espontânea na areia representa falta de limpeza.
O Parque Jundu merece ser acompanhado pelo que pode recuperar: vegetação nativa, funções ecológicas e uma relação mais cuidadosa com a praia. Seu papel na proteção costeira precisará ser demonstrado com dados, manutenção e continuidade.
Leia também: Por que a areia de Santos é escura? Entenda a ciência.
Você conhece a área prevista para o Parque Jundu? Que cuidados considera essenciais para conciliar preservação e uso da praia? Deixe sua opinião nos comentários.
Por Sergio Martins, formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas. Criador do Santos em Movimento.
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