Queimadas no Amazonas: o que está por trás da crise

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O aumento dos focos de calor, a fumaça em Manaus e a suspensão de aulas mostram como o fogo afeta a floresta e a vida nas cidades.

As queimadas no Amazonas já interferem na rotina escolar. Em nota publicada em 18 de outubro de 2026, a Prefeitura de Manaus informou que manteria as aulas presenciais da rede municipal suspensas no dia 19, devido à baixa qualidade do ar. A decisão mostra uma consequência concreta da crise: a fumaça chega aos espaços onde as pessoas vivem, estudam e trabalham. Fonte: Prefeitura de Manaus

Entender esse momento exige olhar para a origem do fogo, as condições que favorecem sua propagação e a capacidade de proteger a população. Os números ajudam a dimensionar o problema, desde que sejam acompanhados de período, localização e método de medição.

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O recorte principal deste artigo é o estado do Amazonas. Dados sobre a Amazônia como um todo serão identificados separadamente.

O que os dados mostram sobre as queimadas no Amazonas

Imagem de satélite mostra fumaça próxima a Manaus e ao longo do rio Amazonas, em 12 de outubro de 2026.
Fumaça na Amazônia central em 12/10/2026: Manaus (AM) e Santarém (PA) aparecem no registro do satélite Aqua. Crédito: Lauren Dauphin/NASA Earth Observatory; dados MODIS/EOSDIS LANCE e GIBS/Worldview. Fonte e contexto.

Segundo o boletim de 16 de outubro do Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM), com dados do INPE, o estado acumulou 8.084 focos de calor entre 1º de janeiro e 15 de outubro de 2026. No mesmo intervalo de 2025, foram 3.674: aumento de aproximadamente 120%.

Essa comparação utiliza períodos equivalentes e a série do satélite de referência AQUA_M-T. É um crescimento expressivo em relação a 2025, mas esses dois valores, isoladamente, não permitem classificar 2026 como recorde histórico. Também não representam anos completos. Fonte: MPC-AM, boletim de 16/10

No recorte de 1º a 16 de outubro, o boletim seguinte contabilizou 1.830 focos no Amazonas. Os cinco municípios com maiores totais estaduais nesse intervalo foram:

MunicípioFocos de calor de 1º a 16/10/2026
Lábrea257
Autazes194
Boca do Acre189
Itacoatiara120
Novo Aripuanã101

São detecções acumuladas no período, e não uma contagem de incêndios ainda ativos. Fonte: MPC-AM, boletim de 17/10

Como interpretar os focos de calor

Um foco de calor é uma detecção de fogo pelo satélite. Um incêndio extenso pode gerar vários focos, enquanto uma mesma área observada pode conter diferentes frentes de fogo. Há também ocorrências que escapam à detecção.

Por isso, focos de calor, número de incêndios e área queimada são indicadores diferentes. A extensão atingida exige mapeamento próprio, normalmente apresentado em hectares ou quilômetros quadrados. Comparações também precisam manter compatíveis o território, o período e os sensores utilizados. Fonte: Programa Queimadas do INPE

Essa distinção permite acompanhar a tendência sem transformar cada ponto do mapa em uma medida de destruição.

Por que o fogo encontra condições para se espalhar

Mapa do INMET com os totais de chuva no Brasil em agosto de 2026, em milímetros.
Precipitação acumulada no Brasil em agosto de 2026, em milímetros. O mapa apresenta o contexto nacional; o total de 2,6 mm citado no texto refere-se à estação de Manaus. Imagem: INMET. Fonte.

O ressecamento já aparecia nos registros meteorológicos. Segundo o INMET, a estação de Manaus registrou somente 2,6 milímetros de chuva em agosto de 2026, volume 95,4% abaixo da média histórica daquele mês. O dado é da estação citada e não descreve uniformemente todo o território amazonense. Fonte: INMET

Em análise publicada em 15 de outubro, a NASA relacionou o aumento da atividade do fogo na Amazônia central e oriental à seca associada ao El Niño. Com a vegetação mais seca, queimadas usadas em atividades rurais, como limpeza de pastagens e áreas agrícolas, podem escapar e alcançar a floresta.

A origem humana e as condições climáticas precisam ser consideradas juntas. O clima favorece a propagação; identificar como cada ocorrência começou e quem é responsável exige apuração específica. A análise da NASA também destaca a vulnerabilidade de florestas atingidas anteriormente: danos acumulados podem facilitar novas queimadas, em um ambiente onde muitas espécies não são adaptadas ao fogo. Fonte: NASA Earth Observatory

Para compreender o fenômeno climático, leia também El Niño: como se forma e quais os efeitos no Brasil.

A fumaça transforma o incêndio em um problema de saúde

Detalhe de colete azul com a identificação da Força Nacional do SUS.
Identificação da Força Nacional do SUS, em imagem ilustrativa divulgada pelo Ministério da Saúde em 13/10/2026 ao anunciar apoio ao Amazonas. Foto: Divulgação/MS. Fonte. CC BY-ND 3.0.

Na manhã de 18 de outubro, a Prefeitura de Manaus informou uma concentração média de 150,5 microgramas de material particulado fino por metro cúbico, a partir de 14 sensores da plataforma PurpleAir, às 6h. A administração classificou a qualidade do ar como péssima.

Esse resultado descreve a leitura divulgada para aquele horário. Não deve ser tratado como uma média de 24 horas ou como condição idêntica em todos os bairros. Fonte: Prefeitura de Manaus

O Ministério da Saúde alerta que a exposição à fumaça pode agravar doenças respiratórias e cardiovasculares. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças preexistentes precisam de atenção especial. Uma equipe da Força Nacional do SUS foi enviada ao Amazonas em 11 de outubro para avaliar necessidades e apoiar a organização da assistência, incluindo o atendimento às populações indígenas. Fonte: Ministério da Saúde

Entre as orientações oficiais para períodos de fumaça estão reduzir a exposição, evitar exercícios ao ar livre e buscar ambientes protegidos, com conforto térmico. Quando for necessário sair, máscaras PFF2 ou N95 bem ajustadas podem reduzir a inalação de partículas. Sintomas respiratórios ou outras complicações exigem atenção e procura por atendimento. Orientações do Ministério da Saúde

Como pode haver menos desmatamento e mais fogo?

Satélite Aqua registra fumaça e áreas abertas no Amazonas e no Pará em 4 de agosto de 2024.
Registro histórico de 4/8/2024: fumaça e áreas abertas no Amazonas e no Pará. A imagem ilustra a relação entre abertura de áreas e fogo; não retrata a situação de outubro de 2026. Crédito: Michala Garrison/NASA Earth Observatory; dados MODIS/EOSDIS LANCE e GIBS/Worldview. Fonte.

Os dados divulgados pelo INPE em 16 de outubro ajudam a esclarecer essa aparente contradição. A estimativa do Prodes apontou 525 km² de desmatamento no Amazonas entre agosto de 2025 e julho de 2026, ante 979 km² no período anterior — redução de aproximadamente 46,4%.

Esse intervalo terminou antes dos incêndios de outubro. Além disso, desmatamento mede a supressão da vegetação; o fogo pode atingir áreas já abertas ou degradar uma floresta sem que toda a superfície afetada seja imediatamente classificada como desmatamento.

Assim, a redução de um indicador pode coexistir com agravamento de outro. A avaliação ambiental precisa acompanhar tanto a retirada da vegetação quanto os danos nas áreas que continuam florestadas. Fonte: INPE, Prodes 2026

O que foi mobilizado e o que ainda precisa ser acompanhado

Helicóptero verde do Ibama em voo baixo, em imagem divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente.
Helicóptero do Ibama em imagem divulgada pelo MMA em 18/10/2026, no anúncio de reforço das operações no Amazonas. Foto: Fernando Donasci/MMA. Fonte. CC BY-ND 3.0.

Segundo o Ministério da Saúde, o governo federal reconheceu, em 10 de outubro, a situação de emergência decretada pelo Amazonas em 36 municípios. Fonte: Ministério da Saúde

Em atualização publicada em 18 de outubro, o Ministério do Meio Ambiente informou que 16 aeronaves estavam à disposição das operações. O governo também anunciou a instalação de um Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas em Manaus, para coordenar a atuação militar, e manteve a previsão de implantação de uma base da Força Nacional do SUS na capital em 20 de outubro. Fonte: Ministério do Meio Ambiente, 18/10

O comunicado de 17 de outubro havia informado que o Ibama contabilizava 317 incêndios extintos desde o início da temporada. Esse é um balanço operacional, que utiliza uma unidade diferente dos focos de calor detectados por satélite. As medidas ainda previstas devem ser acompanhadas até sua efetiva execução. Fonte: Ministério do Meio Ambiente, 17/10

A resposta precisa continuar depois da emergência

Vista aérea da floresta amazônica com várias colunas de fumaça sobre a vegetação.
Fumaça se espalha sobre a floresta amazônica. Proteger as áreas florestadas e acompanhar os danos integra a resposta ao fogo. Foto: Michael Dantas/AFP. Fonte.

Na análise do Santos em Movimento, o enfrentamento das queimadas deve ser avaliado por resultados que a população consiga acompanhar:

  • Prevenção antes do período crítico: equipes preparadas, equipamentos disponíveis e orientação adequada às comunidades e aos produtores.
  • Fiscalização e apuração: identificação das áreas de origem do fogo, investigação das ocorrências e responsabilização quando houver infrações.
  • Proteção da saúde: alertas claros, monitoramento do ar e assistência acessível, inclusive em comunidades distantes.
  • Transparência na resposta: divulgação das equipes efetivamente mobilizadas, dos recursos executados e da evolução das áreas atendidas.
  • Acompanhamento ambiental: avaliação dos danos e das necessidades de recuperação após o controle das chamas.

A emergência de outubro mostra o custo social de uma paisagem sob fogo. A qualidade da resposta será percebida na redução da exposição à fumaça, na proteção dos territórios e na capacidade de evitar que novas ocorrências se tornem grandes incêndios.

Você mora no Amazonas? Como a fumaça tem afetado sua rotina? Conte nos comentários sua cidade e o que tem observado.

Sobre o autor: Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas, e criador do Santos em Movimento.

Base de apuração: informações disponíveis até 18 de outubro de 2026. Cada dado mantém seu próprio período de referência; os indicadores podem ser atualizados pelos órgãos responsáveis.


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