Meteorologista alerta: pior fase dos tornados ainda está por vir

O Sul do Brasil pode estar diante de uma temporada de maior atenção para tempestades severas. E, segundo uma análise do meteorologista Luiz F. Nachtigall, da MetSul Meteorologia, o período mais preocupante ainda não chegou.

A sequência recente de tornados registrados na região chamou a atenção, mas o que preocupa não é apenas a quantidade de ocorrências. O cenário atmosférico projetado para os próximos meses reúne alguns dos principais ingredientes associados a tempestades capazes de produzir granizo, vendavais e, em determinadas situações, tornados.

Isso não significa que seja possível saber antecipadamente onde um tornado vai acontecer. A meteorologia não consegue prever um fenômeno tão localizado com semanas de antecedência.

O que pode ser identificado é outra coisa: quando a atmosfera começa a apresentar condições mais favoráveis para tempestades violentas.

Por que os próximos meses preocupam?

A chegada da primavera muda gradualmente as condições atmosféricas sobre o Sul do Brasil.

Com o aumento das temperaturas, cresce também a disponibilidade de calor e umidade. Quando esse ar quente e úmido encontra sistemas de instabilidade e massas de ar frio, a atmosfera pode se tornar altamente instável.

Se, ao mesmo tempo, houver uma mudança significativa na velocidade ou na direção dos ventos conforme aumenta a altitude, surge o chamado cisalhamento do vento.

Essa combinação é importante porque pode favorecer o desenvolvimento de tempestades muito organizadas.

Em determinadas situações, essas tempestades podem adquirir rotação e dar origem às chamadas supercélulas, sistemas capazes de produzir fenômenos extremos.

É nesse ambiente que podem surgir alguns dos tornados mais intensos.

O que o El Niño tem a ver com os tornados?

Um dos pontos que merece atenção é a atuação do El Niño.

O fenômeno não deve ser interpretado como uma espécie de “causador de tornados”. Essa relação seria simplista demais.

O El Niño modifica padrões de circulação atmosférica e pode alterar a distribuição de calor, umidade e sistemas meteorológicos em diferentes regiões.

Em determinadas configurações, essas mudanças podem contribuir para um ambiente mais favorável à ocorrência de tempestades severas.

É justamente por isso que os meteorologistas acompanham não apenas a temperatura ou a quantidade de chuva, mas também o comportamento dos ventos, da pressão atmosférica, da umidade e dos sistemas de escala maior.

Três tornados em apenas 12 dias

A preocupação ganhou força depois que três tornados foram registrados no Sul do Brasil em um intervalo de apenas 12 dias.

Em 28 de julho, um tornado atingiu municípios do Noroeste do Rio Grande do Sul e foi classificado pela MetSul como F3, com estimativa de ventos de até 300 km/h.

Em 6 de agosto, outro fenômeno atingiu Pedro Osório, no Sul do Rio Grande do Sul. A classificação foi F2, com ventos estimados em até 200 km/h.

Dois dias depois, em 8 de agosto, Piraí do Sul, no Paraná, também registrou um tornado.

A concentração desses eventos em um período tão curto chama atenção, mas não significa que o Brasil esteja entrando em uma sequência inevitável de tornados.

O Sul possui uma climatologia naturalmente favorável a tempestades severas. Além disso, hoje os fenômenos são registrados com muito mais facilidade graças a celulares, câmeras de segurança e redes sociais.

O Sul do Brasil é uma das regiões mais favoráveis?

Sim, e existe uma explicação meteorológica para isso.

O Sul está localizado em uma área onde diferentes massas de ar frequentemente entram em confronto.

O ar quente e úmido vindo de regiões tropicais pode encontrar massas de ar frio que avançam pelo continente a partir do sul.

Esse contraste pode produzir grandes diferenças de temperatura e pressão em uma mesma região.

Quando outros ingredientes aparecem simultaneamente — como umidade elevada, instabilidade e forte cisalhamento do vento — as tempestades podem se tornar extremamente organizadas.

Por isso, estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná estão entre as áreas brasileiras que merecem atenção quando as condições para tempestades severas se estabelecem.

Tornado pode ser previsto com antecedência?

Essa é uma das principais dúvidas quando um alerta como esse aparece.

A resposta é: não da maneira como se prevê uma frente fria ou uma onda de calor.

Os meteorologistas conseguem identificar, com antecedência, regiões onde a atmosfera apresenta condições favoráveis para tempestades severas.

Mas determinar exatamente qual cidade será atingida por um tornado, em qual horário e qual será sua trajetória é algo muito mais difícil.

Um tornado pode se formar e desaparecer em poucos minutos, dentro de uma área relativamente pequena.

Por isso, os alertas de maior utilidade normalmente acontecem quando a tempestade já está se organizando ou quando existem sinais claros de que determinado sistema pode produzir fenômenos severos.

O que significa dizer que “a pior fase ainda está por vir”?

A expressão não significa que uma sequência de tornados esteja garantida.

O alerta está relacionado ao fato de que os meses seguintes podem apresentar mais situações meteorológicas favoráveis a tempestades severas.

A primavera e o início do verão costumam aumentar a disponibilidade de calor e umidade, ingredientes importantes para a formação de tempestades.

Isso cria um cenário que merece acompanhamento, principalmente quando sistemas de grande escala também favorecem a instabilidade.

Portanto, a mensagem mais importante não é esperar um tornado.

É estar preparado para tempestades severas.

O risco não é apenas o tornado

Quando se fala em tempestades severas, o tornado costuma chamar mais atenção por causa das imagens impressionantes e do potencial de destruição.

Mas outros fenômenos podem provocar danos muito maiores em uma área extensa.

Granizo de grande tamanho, vendavais, rajadas de vento destrutivas, chuva intensa e descargas elétricas também representam riscos importantes.

Em muitos episódios, esses fenômenos acontecem na mesma tempestade.

Por isso, mesmo quando não existe qualquer indicação de tornado, um alerta de tempestade severa deve ser levado a sério.

Como se proteger durante uma tempestade severa?

A regra mais importante é não tentar acompanhar uma tempestade de perto.

Quando houver alerta de tempo severo, o ideal é permanecer em uma construção segura, afastado de janelas e portas de vidro.

Também é recomendável evitar árvores, postes, estruturas metálicas, áreas abertas e locais sujeitos a alagamentos.

Durante ventos muito fortes, carros também podem oferecer proteção limitada dependendo da situação e do local. O mais seguro é buscar abrigo adequado antes que a tempestade fique sobre a região.

E existe um erro que deve ser evitado: sair para filmar um tornado ou uma tempestade severa.

A distância aparente pode enganar. O deslocamento da tempestade pode ser rápido e as condições podem mudar em poucos minutos.

O que observar nos próximos meses?

Mais do que tentar descobrir se uma determinada cidade será atingida, o importante é acompanhar a evolução das condições meteorológicas.

Previsões de forte instabilidade, grandes diferenças de temperatura, alta umidade, cisalhamento intenso do vento e formação de tempestades organizadas são sinais que merecem atenção.

Também é importante acompanhar os alertas emitidos pelos órgãos oficiais de meteorologia e defesa civil.

A ocorrência de três tornados em poucos dias serve como um lembrete de que o Sul do Brasil possui condições capazes de produzir fenômenos meteorológicos extremos.

Mas o verdadeiro alerta está no cenário atmosférico que pode se estabelecer nos próximos meses.

A primavera ainda nem começou, e a atmosfera do Sul já mostra por que essa época do ano exige atenção.

Fontes

MetSul Meteorologia — análise do meteorologista Luiz F. Nachtigall sobre a temporada de tornados e tempestades severas no Sul do Brasil.

MetSul Meteorologia — informações sobre os tornados registrados no Rio Grande do Sul e no Paraná e sobre o cenário atmosférico associado ao El Niño.

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