Santos é vulnerável ao avanço do mar?

Santos é uma cidade intimamente ligada ao mar. A praia, o estuário, os canais e o Porto fazem parte da identidade e da economia do município.

Mas essa localização também cria uma condição que merece cada vez mais atenção: a cidade está exposta a diferentes riscos associados ao oceano, às ressacas, às inundações e à elevação do nível do mar.

Isso não significa que Santos esteja prestes a ser engolida pelo mar. Essa interpretação seria exagerada. O que existe é uma vulnerabilidade costeira que pode aumentar ao longo das próximas décadas, especialmente se a elevação do nível do mar se combinar com ressacas, marés elevadas, chuvas intensas e outros fatores.

O próprio município reconhece esses riscos. O Plano de Ação Climática de Santos considera, entre as ameaças climáticas, o avanço do nível do mar, a erosão costeira, as inundações, as ressacas, os movimentos de massa e o aumento da precipitação.

Uma cidade construída em uma área costeira complexa

mapa santos mar

A vulnerabilidade de Santos começa pela própria geografia.

Grande parte da área urbana está associada a terrenos costeiros baixos e ao sistema estuarino da Baixada Santista. Isso faz com que determinadas regiões tenham pouca diferença de altitude em relação ao nível do mar.

Mas não é apenas a altitude que importa.

O subsolo também influencia o comportamento da cidade. Estudos de engenharia geotécnica realizados em Santos mostram a presença de diferentes camadas de sedimentos, incluindo camadas argilosas de origem marinha, cuja espessura varia significativamente pela cidade.

Essa característica do terreno ajuda a explicar um problema histórico de Santos: os recalques do solo.

É importante, porém, não confundir os fenômenos. Recalque do solo e elevação do nível do mar são problemas diferentes, embora possam aumentar a vulnerabilidade quando ocorrem no mesmo território.

O problema dos recalques

predios tortos de santos

Santos ficou famosa pelos edifícios inclinados da orla.

Pesquisas da Escola Politécnica da USP mostram que os recalques começaram a ser observados de forma significativa a partir das primeiras décadas da verticalização da cidade e estão relacionados às características do subsolo e às fundações utilizadas em parte dos edifícios antigos.

Em determinadas áreas, camadas superficiais de areia estão sobre sedimentos mais compressíveis. Quando estruturas são construídas sobre esse sistema, podem ocorrer deformações do terreno ao longo do tempo.

Esse fenômeno é particularmente importante porque mostra uma característica fundamental de Santos: a relação entre cidade, solo e água é extremamente complexa.

Mas isso não significa que toda a cidade esteja afundando de maneira uniforme.

Existem diferenças importantes entre bairros, terrenos e estruturas. Por isso, afirmações genéricas como “Santos está afundando inteira” não representam adequadamente o que os estudos científicos mostram.

E o nível do mar?

Aqui está um dos principais desafios para as próximas décadas.

Um estudo que envolveu pesquisadores do Cemaden, Inpe, USP, Unicamp e instituições internacionais projetou aumento do nível relativo do mar para Santos e mostrou que essa elevação pode aumentar a exposição da cidade a inundações costeiras.

O Plano de Ação Climática de Santos também incorporou a elevação do nível do mar em sua avaliação de vulnerabilidade.

No diagnóstico do plano, a exposição às marés considera três fatores: elevação do nível do mar, relevo e distância em relação à costa.

Isso é importante porque alguns centímetros podem fazer diferença em uma cidade costeira.

Quando o nível médio do mar sobe, uma maré que anteriormente não provocava determinados impactos pode passar a ocorrer sobre uma base mais elevada.

E quando essa situação coincide com uma ressaca, o problema pode se tornar ainda maior.

A ressaca é um dos maiores problemas atuais

ressaca maritima em santos sp

Quem mora em Santos conhece bem o fenômeno.

Durante uma ressaca, ondas mais fortes atingem a costa e podem provocar erosão, danos à infraestrutura e avanço da água sobre determinados trechos da orla.

A Ponta da Praia é um dos pontos mais conhecidos desse problema.

Pesquisas da USP mostram que a região passou por importantes transformações morfodinâmicas e apresenta histórico de erosão. O comportamento da praia está relacionado a fatores naturais e também às modificações provocadas pela urbanização e pelas intervenções realizadas na região.

Estudos hidráulicos também identificaram características específicas do ataque das ondas na Ponta da Praia. Em determinadas condições, as ondas atingem a região de maneira frontal, aumentando o potencial de erosão e de danos durante ressacas.

É por isso que a Ponta da Praia não pode ser usada simplesmente como representação de toda a costa de Santos.

O problema é localizado, embora faça parte de uma vulnerabilidade costeira maior.

Os geobags são uma resposta à erosão

geobags santos ponta da praia

A cidade já vem adotando medidas para tentar reduzir esses impactos.

Um dos exemplos mais conhecidos são os geobags instalados na Ponta da Praia.

O projeto-piloto começou em 2018 e utiliza estruturas submersas para reduzir a energia das ondas e favorecer a retenção de areia no trecho protegido. A estrutura foi desenvolvida com participação da Unicamp.

A Prefeitura informou posteriormente que os geobags ajudaram a reduzir os danos provocados por uma ressaca em trecho protegido da Ponta da Praia.

Em 2024, o município anunciou estudos para expansão da proteção costeira, envolvendo também simulações hidrodinâmicas e a relação entre o comportamento das correntes, a manutenção da areia e o aprofundamento do canal do Porto.

Isso mostra uma questão fundamental: proteger a costa não significa simplesmente construir uma barreira contra o mar.

É necessário compreender como ondas, correntes e sedimentos se movimentam.

Uma intervenção em determinado ponto pode alterar o comportamento da areia em outro.

O Porto também faz parte dessa equação

porto de santos

Santos possui uma das maiores estruturas portuárias do Brasil e uma intensa atividade de navegação.

O Porto está inserido em um ambiente estuarino complexo, onde a circulação da água, as correntes e o transporte de sedimentos possuem papel importante.

Uma dissertação da Escola Politécnica da USP analisou especificamente os impactos da elevação do nível do mar sobre o Porto de Santos, mostrando que a questão não envolve apenas a praia, mas também a infraestrutura portuária e hidráulica.

Por isso, a discussão sobre o futuro da costa santista precisa envolver praias, canais, estuário, porto, drenagem e ocupação urbana.

Não são problemas isolados.

Quais áreas são mais vulneráveis?

Não existe uma resposta simples dizendo que um bairro inteiro está condenado.

A vulnerabilidade depende de vários fatores: altitude, proximidade do mar ou do estuário, características do terreno, sistema de drenagem, exposição às ondas, infraestrutura existente e capacidade de adaptação.

O próprio Plano de Ação Climática de Santos trabalha com mapas de risco e identificação de áreas críticas.

Entre as áreas citadas pelo planejamento municipal estão Ponta da Praia, São Manuel/Alemoa, Quilombo e Monte Cabrão, entre outras.

Isso não significa que esses locais estejam destinados a desaparecer.

Significa que diferentes regiões apresentam diferentes níveis e tipos de vulnerabilidade, e por isso precisam de estratégias específicas.

Santos pode ser protegida?

Sim.

E essa talvez seja a parte mais importante dessa discussão.

A existência de vulnerabilidade não significa que o futuro esteja determinado.

Cidades costeiras podem reduzir seus riscos por meio de planejamento urbano, obras de proteção, recuperação ambiental, melhoria da drenagem, monitoramento, adaptação de edificações e planejamento da ocupação do território.

Santos já possui um Plano de Ação Climática que estabelece estratégias de adaptação e metas para diferentes horizontes temporais. O plano prevê ações relacionadas à drenagem, áreas vulneráveis, infraestrutura, soluções baseadas na natureza e monitoramento.

Também existem iniciativas voltadas à adaptação do estuário e à recuperação de ambientes naturais, incluindo manguezais.

Isso é importante porque a adaptação não depende exclusivamente de grandes obras.

Em determinadas situações, preservar ou recuperar ambientes naturais pode ser parte da própria estratégia de proteção.

O maior desafio será o tempo

Talvez a maior dificuldade de Santos não seja enfrentar um único grande evento.

O desafio é lidar com uma mudança gradual.

O nível do mar pode subir lentamente. As ressacas continuam acontecendo. A erosão pode avançar em determinados trechos. Chuvas intensas podem pressionar a drenagem. O solo continua respondendo às cargas das edificações.

Separadamente, cada problema pode parecer administrável.

Mas os riscos podem se somar.

É justamente por isso que planejamento e monitoramento são tão importantes.

A cidade precisa acompanhar como a linha de costa se comporta, como os sedimentos se movimentam, como o nível do mar evolui e quais áreas apresentam maior exposição.

Santos vai desaparecer?

Não há base científica para afirmar que Santos simplesmente será engolida pelo mar nas próximas décadas.

Essa é uma simplificação que transforma um problema complexo em uma previsão catastrófica.

O que os estudos mostram é algo mais importante: Santos possui vulnerabilidades reais e mensuráveis diante das mudanças climáticas e da dinâmica costeira.

A elevação do nível do mar pode aumentar os riscos. As ressacas podem causar impactos mais significativos em áreas expostas. A erosão já é um problema em determinados trechos. E as características do subsolo continuam exigindo atenção da engenharia.

A questão, portanto, não é perguntar apenas se o mar vai avançar.

A pergunta mais importante é:

Santos estará preparada para lidar com esse avanço?

O futuro depende das escolhas feitas agora

Santos não precisa esperar que os problemas se tornem maiores para agir.

O município já possui planejamento climático, estudos acadêmicos, sistemas de monitoramento e projetos de adaptação.

O próximo passo é manter essas ações de forma contínua, atualizar os estudos e transformar conhecimento científico em decisões concretas.

Porque uma cidade costeira não consegue impedir o mar de existir.

Mas pode decidir como ocupar seu território, como proteger suas áreas vulneráveis e como se preparar para um futuro em que o nível do mar será diferente do atual.

E essa talvez seja a principal lição de Santos: o risco não está apenas no mar.

O risco está na combinação entre o mar, o solo, a ocupação urbana, a infraestrutura e a capacidade que a cidade terá de se adaptar.

Fontes e referências

  • Prefeitura de Santos — Plano Municipal de Ação Climática (PACS).
  • Prefeitura de Santos — Plano Municipal de Mudança do Clima.
  • Agência FAPESP — estudo sobre aumento do nível do mar e vulnerabilidade de Santos.
  • USP — estudos sobre erosão e dinâmica costeira da Ponta da Praia.
  • USP — estudo sobre recalques e características geotécnicas do subsolo de Santos.
  • Prefeitura de Santos — projeto de geobags e proteção da Ponta da Praia.
  • USP — avaliação dos impactos da elevação do nível do mar no Porto de Santos.

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