Os canais fazem parte da paisagem de Santos há mais de um século, mas sua função vai muito além de dividir bairros ou servir como referência de endereço. Eles nasceram de um projeto de saneamento que ajudou a transformar profundamente a cidade e teve papel decisivo no enfrentamento de áreas alagadiças e de graves problemas sanitários.
Para aprofundar a leitura: Por que Santos tem tantos canais? e Maré alta pode agravar alagamentos em Santos?.
Por que Santos precisou construir canais?
Grande parte da área urbanizada de Santos ocupa uma planície costeira baixa, marcada historicamente pela presença de mangues, terrenos encharcados e dificuldades de drenagem. No fim do século XIX e início do século XX, o crescimento urbano ocorreu em meio a graves problemas de saneamento e epidemias.
Foi nesse contexto que o engenheiro sanitarista Saturnino de Brito desenvolveu um amplo projeto para Santos. O sistema combinava canais de drenagem e uma rede de esgotamento sanitário, ajudando a separar águas pluviais dos esgotos e a melhorar as condições sanitárias da cidade.
Os canais não foram feitos para receber esgoto
Uma confusão comum é imaginar que os canais foram projetados como canais de esgoto. A proposta sanitária era justamente separar os sistemas. Os canais abertos tinham papel fundamental na drenagem das águas, enquanto o esgoto deveria seguir por uma rede própria.
Ao longo do crescimento urbano, ligações irregulares, poluição difusa e outros problemas passaram a afetar a qualidade da água. Por isso, a presença de água escura ou resíduos em determinados momentos não representa a finalidade original dessas estruturas.
Qual é a relação dos canais com as marés?
Por estar praticamente ao nível do mar em diversos pontos, Santos sofre influência das marés sobre seu sistema de drenagem. Quando níveis elevados do mar coincidem com chuva intensa, o escoamento da água pode ficar mais difícil e aumentar a possibilidade de alagamentos.
Comportas e estruturas de controle ajudam a administrar essa interação, mas eventos extremos podem colocar o sistema sob forte pressão. Esse é um dos motivos pelos quais a drenagem urbana continua sendo uma questão estratégica para uma cidade costeira como Santos.
Os canais mudaram o crescimento da cidade
O projeto de Saturnino de Brito não foi apenas uma obra hidráulica. Ele influenciou a expansão urbana e ajudou a organizar novos eixos de ocupação. Com o tempo, os canais se tornaram referências tão importantes que os santistas passaram a utilizá-los para indicar regiões da cidade.
Canal 1, Canal 2, Canal 3 e os demais entraram no vocabulário cotidiano de Santos. Há ainda particularidades históricas na numeração e nos nomes oficiais que ajudam a contar como a cidade se expandiu ao longo do século XX.
Um sistema centenário diante de novos desafios
Hoje, os canais convivem com uma cidade muito mais urbanizada e impermeabilizada do que aquela para a qual o sistema original foi concebido. Chuvas intensas, marés elevadas e mudanças no padrão de ocupação aumentam a importância da manutenção e modernização da drenagem.
Além do valor histórico e paisagístico, os canais continuam fazendo parte da infraestrutura que ajuda Santos a conviver com a água. No vídeo acima, o Santos em Movimento mostra como esse sistema surgiu, como funciona e por que permanece tão importante para a cidade.
Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas, e criador do canal Santos em Movimento no YouTube.
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