Maré alta pode agravar alagamentos em Santos?

Sim. A maré alta pode agravar alagamentos em Santos porque reduz a diferença de nível necessária para que a água da chuva deixe as ruas, atravesse galerias e canais e alcance o estuário ou o mar. O efeito costuma ser mais preocupante quando a elevação da maré coincide com chuva forte em pouco tempo.

Isso não significa que todo alagamento seja provocado pela maré. Intensidade da chuva, impermeabilização do solo, lixo ou sedimentos na drenagem, capacidade das tubulações, relevo e funcionamento de bombas e comportas também influenciam o resultado.

Por que a água escoa mais devagar

A drenagem urbana funciona melhor quando o nível no ponto de saída está abaixo do nível da água acumulada na cidade. Essa diferença permite que o escoamento ocorra por gravidade.

Quando a maré sobe, o nível do estuário e de trechos conectados ao sistema de drenagem também pode aumentar. A água encontra maior resistência para sair. Dependendo do local e da proteção instalada, pode ainda tentar avançar no sentido contrário pelas galerias.

É como tentar esvaziar um recipiente por um tubo cuja saída está quase submersa: a água continua podendo circular, mas com menos eficiência. Se uma chuva intensa acrescenta volume mais rápido do que o sistema consegue retirar, ruas e áreas baixas podem alagar.

Comportas impedem o retorno da maré

Comportas e válvulas antirretorno são utilizadas para bloquear a entrada da água externa na rede. Em 2023, Santos anunciou válvulas desse tipo no Canal 3, destinadas a impedir o avanço da água do mar pelas galerias durante períodos de maré elevada e ressaca.

Fechar uma comporta, entretanto, também interrompe o escoamento natural em direção ao estuário. Por isso, áreas protegidas precisam de espaço para armazenar temporariamente a água da chuva e de bombas capazes de lançá-la para fora do sistema.

Vista aérea da Estação Elevatória com Comportas da Zona Noroeste de Santos
Estação elevatória combina reservatório, comportas e bombas para controlar a água durante chuvas e marés elevadas. Foto: Arquivo da Prefeitura de Santos/Divulgação.

Como funciona uma estação elevatória

A Estação Elevatória com Comportas 7, em funcionamento na Zona Noroeste desde 2023, ajuda a visualizar esse processo. Segundo a Prefeitura, com chuva fraca e maré baixa, as comportas ficam abertas e a água segue por gravidade até o Rio dos Bugres.

Com maré alta, as comportas são fechadas para evitar o retorno da água. O volume pluvial fica temporariamente no reservatório e é retirado gradualmente pelas bombas. Na situação mais crítica — chuva forte e maré alta — todas as bombas podem operar simultaneamente.

O reservatório da EEC7 comporta 4,25 milhões de litros, e suas três bombas têm vazão conjunta informada de seis mil litros por segundo. Esses números representam a capacidade do equipamento, não uma garantia de que nunca haverá acúmulo de água na área atendida.

Maré alta e ressaca não são a mesma coisa

A maré astronômica é a variação periódica do nível do mar causada principalmente pela atração gravitacional da Lua e do Sol. Seus horários e alturas aproximadas podem ser consultados antecipadamente nas tábuas de maré da Marinha.

Já as condições meteorológicas podem elevar ou reduzir o nível observado em relação ao previsto. Pressão atmosférica, direção e intensidade dos ventos ajudam a empurrar água para a costa ou para o estuário. A ressaca está relacionada à agitação marítima e à chegada de ondas maiores, podendo ocorrer junto com uma elevação anormal do nível do mar.

Por esse motivo, consultar apenas o horário da maré não basta para prever um alagamento. É necessário acompanhar também chuva, vento, ondas e avisos oficiais.

Por que algumas áreas são mais vulneráveis

Partes da Zona Noroeste possuem cota próxima ou inferior aos níveis alcançados pelas marés mais altas. Nesses locais, o escoamento por gravidade se torna limitado com maior frequência.

Na região da orla, canais e galerias também mantêm conexão hidráulica com o ambiente costeiro. O risco varia conforme a altitude da via, as saídas existentes, o estado de conservação da rede e a quantidade de chuva recebida em cada bairro.

A urbanização amplia o desafio. Telhados, asfalto e calçadas reduzem a infiltração no solo e conduzem rapidamente a água para bocas de lobo e galerias. Quando muita água chega ao mesmo tempo, a capacidade local pode ser superada.

Limpeza ajuda, mas não resolve tudo

Retirar lixo, areia e sedimentos preserva a seção disponível para o fluxo. Antes das chuvas de setembro de 2026, a Prefeitura removeu temporariamente um aterro instalado durante uma obra no canal da Avenida Jovino de Melo, liberando aproximadamente cinco metros no fundo e sete metros na superfície da calha.

A medida aumentou a área disponível para passagem da água naquele trecho. Ainda assim, manutenção não substitui obras dimensionadas para os pontos críticos, nem elimina a influência de eventos meteorológicos intensos e da maré.

O que acompanhar antes de uma chuva forte

  • Alertas da Defesa Civil e previsão de acumulados de chuva;
  • avisos de vento forte e ressaca emitidos pelos órgãos oficiais;
  • tábuas de maré do Porto de Santos;
  • orientações de trânsito e pontos de bloqueio;
  • sinais de obstrução em bocas de lobo e canais.

Durante um alagamento, não é seguro atravessar a água a pé ou de veículo. A profundidade pode ser maior do que aparenta, tampas de bueiro podem ter se deslocado e a correnteza pode esconder obstáculos.

Análise ambiental — Sergio Martins

Os alagamentos costeiros mostram por que a cidade não pode tratar chuva, maré e drenagem como problemas separados. Quando esses fatores coincidem, a infraestrutura fica mais pressionada e as áreas baixas se tornam mais vulneráveis. Além da manutenção de canais, comportas e bombas, o planejamento urbano precisa considerar a impermeabilização do solo, a ocupação das áreas suscetíveis e a possibilidade de eventos mais intensos.

Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas, e criador do canal Santos em Movimento no YouTube.

Uma combinação de fatores

A resposta curta à pergunta do título é, portanto, sim: a maré alta pode dificultar a saída da água e agravar alagamentos em Santos. Mas o impacto depende da coincidência com chuva, vento e ondas, além das condições da drenagem e da infraestrutura de cada área.

Comportas, reservatórios, bombas, canais limpos e áreas permeáveis atuam em conjunto. Nenhuma medida isolada elimina completamente o risco, especialmente diante de eventos extremos ou de combinações acima da capacidade prevista no projeto.

Fontes: Programa de macrodrenagem da Zona Noroeste, válvulas antirretorno no Canal 3, intervenção preventiva no canal da Avenida Jovino de Melo e Tábuas de Maré da Marinha do Brasil.

Imagem destacada: retirada preventiva de aterro no canal da Avenida Jovino de Melo. Foto: Prefeitura de Santos/Divulgação.

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