Uma extensa camada de espuma voltou a chamar atenção no Rio Tietê, no trecho que atravessa Salto, no interior de São Paulo. O fenômeno, registrado repetidas vezes em 2026, é mais do que uma alteração visual da paisagem: funciona como um sinal evidente da carga de poluentes que continua sendo transportada pelas águas do principal rio paulista.
A espuma se torna mais visível em Salto por causa de uma combinação de fatores. Resíduos de detergentes e outros produtos de limpeza, conhecidos como surfactantes, chegam ao rio junto com esgoto doméstico e efluentes. Durante períodos de pouca chuva, a vazão diminui e essas substâncias ficam mais concentradas. Ao alcançar as corredeiras e quedas-d’água do município, a turbulência mistura água e ar, favorecendo a formação de grandes volumes de espuma.

Por que o problema aparece com tanta força em Salto?
A geografia do trecho ajuda a tornar visível uma poluição que foi produzida ao longo da bacia. As quedas-d’água funcionam como um agitador: os surfactantes reduzem a tensão superficial da água e, com o movimento intenso, surgem bolhas que se acumulam em mantos brancos.
Isso significa que Salto não é necessariamente o ponto onde toda a contaminação é gerada. Parte importante da carga poluidora chega de municípios situados rio acima, especialmente da Região Metropolitana de São Paulo. Por isso, ações isoladas no local onde a espuma aparece não conseguem resolver sozinhas um problema que atravessa diferentes cidades.
Estiagem agrava a concentração de poluentes
A ocorrência tende a ficar mais intensa durante a estiagem. Com menos água circulando, há menor capacidade de diluição da matéria orgânica, dos detergentes e de outras substâncias presentes no rio. Quando a correnteza volta a ganhar força ou encontra as corredeiras, a espuma pode se formar e se espalhar rapidamente.
A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) mantém ações de monitoramento no Tietê, incluindo vistorias, coletas de água e acompanhamento de trechos do rio. Mesmo assim, a repetição do fenômeno mostra que a recuperação depende principalmente da redução contínua dos lançamentos de esgoto e efluentes sem tratamento adequado.
Impactos vão além da aparência do rio
A espuma é apenas a parte mais visível do problema. A presença elevada de matéria orgânica e contaminantes pode alterar características importantes da água, como o pH e a quantidade de oxigênio dissolvido. Quando o oxigênio diminui, peixes, invertebrados e outros organismos aquáticos encontram condições mais difíceis para sobreviver.
A degradação também pode afetar a vegetação das margens, reduzir a biodiversidade e provocar desequilíbrios nas cadeias alimentares. Animais terrestres que bebem a água ou procuram alimento nas proximidades ficam expostos a um ambiente contaminado.
Para a população, a orientação é evitar contato com a espuma e com a água. A exposição pode provocar irritações na pele e nos olhos, além de envolver riscos associados às substâncias presentes no rio. A recorrência do problema ainda prejudica a paisagem, o turismo e a relação histórica de Salto com o Tietê.
Retirar a espuma resolve?
Barreiras de contenção e equipamentos capazes de recolher resíduos da superfície podem diminuir o acúmulo em pontos específicos. Dispositivos mecânicos também podem quebrar a espuma antes que ela forme grandes blocos. Essas medidas, porém, são paliativas: reduzem o contato e o impacto visual, mas não eliminam os poluentes dissolvidos na água.
A solução estrutural começa antes de a água chegar a Salto. É necessário ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, eliminar ligações clandestinas, fiscalizar lançamentos industriais e acompanhar substâncias como surfactantes e fósforo. Estações com etapas mais avançadas de tratamento podem remover nutrientes e compostos que os processos convencionais nem sempre retiram completamente.
O Governo de São Paulo mantém o programa IntegraTietê, que reúne intervenções de saneamento, monitoramento e desassoreamento. Entre as obras em andamento está a ampliação da Estação de Tratamento de Esgoto de Barueri, prevista para elevar sua capacidade média de tratamento. Segundo dados divulgados pelo Estado, novas conexões à rede reduziram a carga de esgoto sem tratamento lançada na bacia nos últimos anos. Ainda assim, episódios como o de Salto mostram que a recuperação completa permanece distante.
Um problema de toda a bacia
O Rio Tietê percorre aproximadamente 1.100 quilômetros dentro do estado de São Paulo. A água que passa por Salto carrega os efeitos acumulados de decisões tomadas em muitos municípios. Por isso, a espuma não pode ser tratada apenas como um problema local ou sazonal.
Para que o fenômeno deixe de se repetir, prefeituras, governo estadual, empresas de saneamento, indústrias e órgãos ambientais precisam atuar de maneira coordenada. A retirada da espuma pode aliviar o cenário imediato, mas somente a redução da poluição na origem será capaz de devolver qualidade ambiental ao rio.