Além do asfalto: o pavimento permeável em debate no Marrocos

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Detalhe de blocos e juntas drenantes em pavimento permeável no Museu Público de Milwaukee, nos Estados Unidos
Pavimento permeável no Museu Público de Milwaukee, Estados Unidos. Foto: Aaron Volkening / Wikimedia Commons, CC BY 2.0. Imagem redimensionada.

Uma rua precisa suportar o trânsito. Mas também interfere no calor que sentimos e no caminho que a água da chuva percorre. Quando o planejamento considera apenas a circulação dos veículos, deixa de aproveitar oportunidades para tornar o espaço urbano mais confortável e melhorar a drenagem.

O pavimento permeável reúne essas discussões. Ele permite que parte da chuva atravesse a superfície e, em determinadas condições, pode contribuir para o resfriamento. A atenção recente ao Marrocos ajuda a entender a tecnologia e a fazer uma pergunta útil para as cidades brasileiras: onde vale a pena repensar o uso do asfalto?

O que está sendo discutido no Marrocos

Uma reportagem do Xataka, republicada pelo Terra, informa que Marrakech e Agadir experimentam revestimentos permeáveis em substituição a parte do pavimento convencional. O texto associa a iniciativa à redução do calor e do escoamento superficial. Porém, não apresenta a localização dos trechos, relatórios de acompanhamento ou medições que permitam quantificar os resultados dessas experiências.

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Há uma referência oficial que ajuda a contextualizar o tema: o Plano de Ação Cidade Verde de Agadir, disponibilizado pelo Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento, prevê a requalificação de pátios escolares com vegetação, sombra e superfícies permeáveis. O documento inclui a adaptação de 24 espaços escolares nessa agenda.

O plano mostra que a combinação de drenagem e conforto térmico faz parte do planejamento local. Ele não comprova, por si só, que as intervenções já foram concluídas nem que as ruas das duas cidades passaram por uma substituição generalizada do asfalto. Para avaliar resultados, é preciso distinguir anúncio, obra executada e desempenho medido.

Como funciona um pavimento permeável

Segundo a ficha técnica da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), existem diferentes soluções, como asfalto poroso, concreto permeável e blocos com juntas drenantes. A água atravessa os vazios da superfície ou os espaços preparados entre as peças e chega às camadas inferiores.

Sob o revestimento, materiais como brita podem armazenar água temporariamente. Conforme o terreno e o projeto, ela infiltra no solo ou segue por drenos. Por isso, o funcionamento depende do conjunto da estrutura: trocar apenas o acabamento não garante que a chuva encontre um caminho adequado.

Um piso de blocos não é automaticamente permeável. As juntas, a base e a saída da água precisam ser compatíveis com essa finalidade. A EPA também destaca que a escolha deve considerar o tráfego: calçadas, estacionamentos e vias locais têm exigências diferentes das pistas com circulação intensa e cargas elevadas.

Demonstração experimental da passagem de água por pavimento permeável, fotografada no Japão em 2012
Demonstração de pavimento permeável no Japão, em 2012. Foto: Lombroso / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0. Imagem redimensionada; exemplo da tecnologia.

Por que a água pode ajudar a reduzir o calor

A EPA explica que os chamados pavimentos frios utilizam estratégias diferentes: refletir uma parcela maior da energia solar, favorecer a evaporação ou modificar outras propriedades do material. Portanto, cor clara e permeabilidade não significam a mesma coisa, embora possam ser combinadas.

A evaporação consome energia. Quando há umidade disponível em condições que permitam sua evaporação, parte do calor participa desse processo, contribuindo para resfriar a superfície. O efeito depende da disponibilidade de água e das características do sistema; um piso drenante não funciona como um equipamento de refrigeração com potência constante.

A revisão técnica Cool Pavements, de Martin Hendel, distingue a temperatura do pavimento, a troca de calor com o ar e a radiação recebida pelas pessoas. Essa diferença é decisiva: um chão menos quente não autoriza afirmar que todo o bairro terá a mesma queda de temperatura.

Na comparação entre duas soluções, interessa medir o que acontece no horário em que a rua é usada, sob condições semelhantes de sol e vento. Para o pedestre, também importa a exposição ao sol ao longo do trajeto. A escolha do piso deve integrar o projeto do espaço público, com atenção à sombra e aos locais de permanência.

A manutenção faz parte da solução

O manual de águas pluviais de Minnesota alerta para o acúmulo de sedimentos e detritos, que pode obstruir os caminhos da água. Também recomenda um plano de operação e manutenção com responsáveis, orçamento, inspeções e limpeza definidos.

Isso significa acompanhar o pavimento depois da inauguração. Uma superfície que começa a formar poças merece investigação: pode haver obstrução, problemas nas entradas de água ou perda de capacidade de infiltração. A limpeza deve seguir o sistema instalado e pode exigir equipamentos de aspiração, além de ensaios para verificar o desempenho.

O custo da obra, portanto, é apenas parte da conta. Ao analisar uma proposta para a cidade, vale perguntar quem fará a manutenção, com quais recursos e como os resultados serão apresentados à população. Um material adequado pode perder a sua função quando esses cuidados são esquecidos.

O que Santos pode aproveitar dessa discussão

Em Santos, a relação entre asfalto, vegetação e drenagem já aparece em intervenções municipais. A Prefeitura descreveu ações em Ponta da Praia, Campo Grande, Encruzilhada e Vila Belmiro, com etapas diferentes e combinações de áreas verdes, jardins de chuva e piso intertravado.

Essas intervenções não devem ser tratadas como uma reprodução das experiências citadas no Marrocos. Elas oferecem um ponto de comparação: a possibilidade de distribuir melhor o espaço urbano entre circulação, vegetação e manejo da água.

Canteiro com árvores jovens, flores e grama em rotatória da Ponta da Praia, em Santos
Rotatória verde na Ponta da Praia, em Santos. Divulgação / Prefeitura de Santos. Crédito da publicação original: Henrique Teixeira e arquivo.

No artigo Áreas verdes em Santos: como reduzir calor e alagamentos, o blog Santos em Movimento explica as diferenças entre arborização, jardins de chuva e pisos permeáveis. Entender a função de cada elemento ajuda a avaliar a obra além de sua aparência.

Para Santos e outras cidades brasileiras, uma aplicação útil dessa discussão seria escolher trechos para acompanhamento antes e depois das intervenções. A avaliação pode reunir a temperatura da superfície, as condições de conforto de quem caminha, o comportamento da água durante as chuvas e o custo de conservação.

Onde a mudança pode fazer diferença

A principal contribuição desse debate está em ampliar os critérios usados para escolher o piso de uma cidade. Além de resistência e preço, entram na decisão a drenagem, o conforto, a acessibilidade e a capacidade de manter a estrutura funcionando.

Também é necessário comparar alternativas para cada espaço. Um estacionamento, um pátio escolar e uma avenida não têm as mesmas exigências. A escolha responsável começa pelo problema do lugar e precisa ser confirmada por projeto, execução e acompanhamento.

Na sua rua, o que mais precisa melhorar: a sombra, o escoamento da chuva ou os dois? Conte nos comentários qual trecho merece atenção.


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