Erosão em Ilhéus: como o porto interfere nas praias

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Estudos para São Miguel e São Domingos recolocam em debate a relação entre o Porto do Malhado, a circulação de areia e a proteção das praias de Ilhéus.

A erosão em Ilhéus, no sul da Bahia, exige olhar para o percurso da areia ao longo da costa. A perda de sedimentos em uma praia pode estar relacionada tanto à dinâmica natural das ondas quanto às mudanças provocadas por estruturas construídas no litoral. Nas praias de São Miguel e São Domingos, essa relação ajuda a entender por que a recuperação precisa ir além da simples reposição de areia.

A contratação de estudos pela Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), noticiada em outubro de 2026, abre uma etapa de planejamento. O ponto decisivo será conhecer a solução proposta, seus efeitos sobre a costa e as condições para mantê-la ao longo dos anos.

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O que está previsto para as praias de Ilhéus

O portal de licitações da Codeba registra, no edital nº 90005/2025, a contratação de levantamentos, estudos e projetos básicos que abrangem o aprofundamento do canal do Porto de Ilhéus, o aterro da retroárea, o engordamento das praias de São Domingos e São Miguel e a sinalização náutica. A recuperação das praias aparece, portanto, dentro de um conjunto de serviços técnicos também voltados ao terminal portuário.

Segundo reportagem do Pimenta publicada em 28 de outubro de 2026, a empresa contratada é a Infras Engenharia e o valor global é de R$ 2.845.311,01, aproximadamente R$ 2,85 milhões. A publicação informa assinatura em 21 de outubro e divulgação do extrato no Diário Oficial da União em 26 de outubro.

Esse valor se refere ao pacote de estudos e projetos. Não é o orçamento da futura obra de engorda. A contratação dessa etapa também não comprova que a recuperação física das praias tenha começado.

Nota de apuração: o objeto da licitação foi conferido no portal da Codeba. O valor e as datas acima são atribuídos ao Pimenta, pois o extrato específico do DOU não pôde ser verificado diretamente nesta apuração.

Como o Porto do Malhado interfere no transporte de areia

Guindastes, navio e instalações do Porto do Malhado, em Ilhéus, em fotografia de janeiro de 2010.
Porto do Malhado, em Ilhéus, em janeiro de 2010. Registro histórico das instalações portuárias; a fotografia não mostra as intervenções em estudo. Foto: Boris Karpuk / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

A areia de uma praia está em movimento. Ondas e correntes redistribuem sedimentos entre trechos do litoral. Quando uma estrutura altera esse transporte, pode favorecer a acumulação em determinados pontos e contribuir para o déficit em outros. Por isso, uma praia mais larga perto de uma obra não demonstra, sozinha, melhora em toda a região.

Em entrevista ao Pimenta em março de 2021, o oceanógrafo Lucio Figueiredo de Rezende, da Universidade Estadual de Santa Cruz, explicou que o espigão do Porto do Malhado retém parte da areia que circulava pelo litoral. Segundo o pesquisador, essa alteração favoreceu o acúmulo na Praia da Avenida, na região da Soares Lopes, e agravou a erosão em São Miguel, onde já existia tendência natural à perda de sedimentos.

A dissertação de Lucas do Nascimento, apresentada à Universidade Federal da Bahia em 2006, analisou a Costa do Cacau por meio de levantamentos de campo e modelagem da deriva litorânea. O trabalho identificou diferenças no sentido do transporte de sedimentos na região de São Miguel e ao norte da desembocadura do rio Almada.

A pesquisa descreve uma zona de divergência: trechos próximos podem perder sedimentos em direções diferentes. Ao discutir estudos anteriores, o autor aponta que o Porto do Malhado pode ter acelerado a erosão, mas ressalta a existência de uma tendência natural de recuo. Essa interpretação exige cautela com explicações que atribuam todo o problema a uma única causa.

A implicação para o projeto é direta: será necessário avaliar o sistema costeiro e o destino da areia colocada nas praias, considerando também os trechos vizinhos.

O impacto da erosão ultrapassa a faixa de areia

Um artigo publicado em 2011 na revista Caminhos de Geografia, de Amom Chrystian de Oliveira Teixeira, Thiara Messias de Almeida e Ana Amélia de Oliveira Lavenère-Wanderley, investigou os efeitos da erosão em São Miguel com entrevistas e pesquisa documental.

Os autores identificaram elevada vulnerabilidade entre moradores da frente de praia e dificuldades para enfrentar o problema individualmente. Também relacionaram a erosão e as obras de contenção à perda de espaços de lazer e de qualidades da paisagem, com prejuízos para quem dependia da praia como fonte de renda.

Esse diagnóstico é histórico, não um levantamento atualizado de imóveis atingidos. Ainda assim, mostra por que a discussão sobre proteção costeira precisa incluir acesso à praia, moradia e atividades econômicas.

A engorda pode ajudar, mas exige manutenção

A engorda, também chamada de alimentação artificial, acrescenta sedimentos à praia para recompor seu volume. A plataforma europeia Climate-ADAPT explica que essa reserva pode ampliar a faixa de areia e ajudar a amortecer a ação das ondas sobre a costa.

O resultado depende da compatibilidade do material e das condições locais. Granulometria, composição e qualidade química precisam ser avaliadas. A proximidade de uma dragagem não basta para concluir que o material retirado do canal é adequado para uso nas praias.

A mesma referência destaca que a alimentação artificial não elimina os processos erosivos. Pode haver necessidade de reposições, com custos e impactos acumulados. Também devem ser considerados os efeitos sobre os organismos que vivem no sedimento e sobre os locais de retirada do material.

Em Ilhéus, isso significa que a avaliação deve explicar quanto de areia permaneceria no sistema, como ela se redistribuiria e qual acompanhamento permitiria decidir por novas intervenções. Esses resultados ainda dependem dos estudos.

Quais respostas o projeto precisa apresentar

Na avaliação do Santos em Movimento, a divulgação dos estudos deve permitir acompanhar quatro questões centrais:

  • Dimensão e objetivo: quais trechos serão atendidos, com que volume de areia e qual proteção se pretende alcançar?
  • Origem do material: de onde virão os sedimentos e quais análises demonstrarão sua compatibilidade com as praias?
  • Efeitos e manutenção: como serão acompanhadas as mudanças nas praias atendidas e vizinhas, e quais custos futuros estão previstos?
  • Execução: qual será o orçamento da obra, de onde virão os recursos e quais etapas ainda precisam ser concluídas antes do início?

A contratação dos estudos permite avançar no planejamento, mas a proteção das comunidades dependerá das decisões e entregas seguintes. Para São Miguel e São Domingos, o resultado relevante será uma solução que considere o transporte de sedimentos, reduza os danos e mantenha a praia utilizável ao longo do tempo.

Para ampliar a discussão, leia também Conter o mar ou recuar? O futuro das cidades costeiras e Como funciona a barreira submersa de Santos e seus impactos?.

Por Sergio Martins, formado em Gestão Ambiental e pós-graduado em Sustentabilidade e Políticas Públicas, criador do Santos em Movimento.

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