Quem caminha pela orla de Santos pode perceber que alguns edifícios parecem se aproximar uns dos outros ou apresentam linhas que não acompanham perfeitamente o horizonte. A imagem desperta curiosidade e uma pergunta inevitável: por que tantos prédios da cidade ficaram inclinados?
A resposta está debaixo da superfície. O fenômeno resulta principalmente da combinação entre o tipo de fundação empregado em construções antigas e as características geológicas do solo da planície costeira santista.
Embora tenham se transformado em uma das imagens mais conhecidas da cidade, os chamados “prédios tortos” não surgiram inclinados. O desaprumo ocorreu gradualmente, à medida que diferentes partes das construções se acomodaram de maneira desigual no terreno.
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O solo de Santos ajuda a explicar o fenômeno
A faixa próxima à praia possui uma camada superficial de areia, mas abaixo dela existem camadas espessas de argila marinha, formadas ao longo de milhares de anos pela dinâmica costeira.
Essa argila é compressível. Quando recebe uma carga muito elevada, como o peso de um edifício, pode perder água lentamente e diminuir de volume. Esse processo é conhecido como adensamento do solo.
Se toda a base do prédio descesse exatamente na mesma proporção, haveria um rebaixamento, mas não necessariamente uma inclinação. O problema aparece quando um lado se acomoda mais do que o outro. É o chamado recalque diferencial.
Em termos simples, parte da construção afunda mais do que a outra e o edifício perde o prumo.
Fundações antigas não alcançavam as camadas mais resistentes
Grande parte dos edifícios inclinados foi construída durante a intensa verticalização da orla, principalmente nas décadas de 1950 e 1960. Naquele período, vários projetos utilizaram fundações apoiadas nas camadas mais próximas da superfície.
Essas soluções eram aceitas pelas práticas e pelos conhecimentos técnicos disponíveis na época, mas não transferiam integralmente o peso das torres para as camadas profundas e mais resistentes do terreno.
Com o passar dos anos, a carga das edificações provocou a acomodação da argila. A proximidade entre prédios também pode influenciar a distribuição das tensões no solo, fazendo com que alguns se inclinem na direção de construções vizinhas ou em sentidos diferentes.
Os edifícios atuais contam com investigações geotécnicas mais detalhadas e, conforme as necessidades de cada projeto, fundações profundas capazes de atravessar as camadas mais compressíveis e alcançar terrenos de maior resistência.
Quantos prédios inclinados existem em Santos?

Em março de 2026, a Prefeitura informou acompanhar 65 edifícios com desaprumo, concentrados principalmente entre os canais 2 e 6, nos bairros Gonzaga, Boqueirão, Embaré e Aparecida.
Um levantamento municipal divulgado em 2012 havia analisado 651 edificações com mais de três pavimentos, desde a divisa com São Vicente até a Ponta da Praia. Naquele diagnóstico, a maioria dos prédios selecionados apresentava desnível próximo de um metro, enquanto os casos mais acentuados chegavam a aproximadamente 1,50 metro e 1,80 metro.
Na ocasião, os técnicos municipais informaram que as construções mapeadas não apresentavam sinais de risco estrutural. Esse dado, porém, não substitui avaliações atuais. A situação de cada edifício precisa ser acompanhada individualmente por profissionais habilitados, por meio de inspeções, medições e laudos técnicos periódicos.
Inclinação e risco de colapso não são sinônimos. Ainda assim, qualquer alteração, como o surgimento de trincas, deformações ou mudanças no desaprumo, deve ser investigada por engenheiros especializados.
É possível endireitar um prédio?
Sim, mas o processo é complexo e caro. O exemplo mais conhecido em Santos é o Edifício Núncio Malzoni, formado por dois blocos que apresentavam inclinações de 2,2 e 1,8 graus.
O trabalho de reaprumo exigiu a sustentação das estruturas, o emprego de macacos hidráulicos e a execução de novas fundações profundas. O prédio foi reposicionado gradualmente até recuperar o alinhamento.
De maneira resumida, a técnica consiste em apoiar e elevar a estrutura de forma controlada, construir uma fundação capaz de transmitir as cargas para camadas resistentes do solo e, depois, acomodar o edifício sobre a nova base.
Não existe, entretanto, uma solução padronizada que possa simplesmente ser repetida em todas as construções. Cada prédio possui características próprias de projeto, fundação, inclinação, conservação e relação com os imóveis vizinhos.
Prefeitura e BNDES discutem financiamento
Em março de 2026, representantes da Prefeitura de Santos e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) discutiram alternativas de engenharia e possibilidades de financiamento para o reaprumo dos edifícios.
Desde 2024, condomínios atingidos pelo problema também passaram a se organizar por meio da Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (Acopi), buscando soluções técnicas e financeiras.
O custo permanece como um dos maiores obstáculos. Uma intervenção desse porte exige estudos geotécnicos, projetos estruturais, equipamentos especializados e acompanhamento rigoroso durante todas as etapas. A discussão com o BNDES representa um avanço na procura por um modelo viável, mas não significa que as obras estejam automaticamente aprovadas ou contratadas para todos os prédios.
Uma marca urbana que exige acompanhamento
Os edifícios inclinados fazem parte da história da verticalização de Santos e ajudam a mostrar como a ocupação urbana precisa considerar as condições naturais do território.
Mais do que uma curiosidade turística, eles representam uma importante lição de engenharia: antes de construir, é indispensável compreender o comportamento do solo e dimensionar a fundação para as características e o peso de cada empreendimento.
O conhecimento acumulado ao longo das últimas décadas tornou as novas construções mais preparadas para as condições geológicas da cidade. Para os edifícios antigos, o caminho passa pelo monitoramento contínuo, pela atualização dos laudos e pela busca de soluções que sejam tecnicamente seguras e financeiramente possíveis.
Assista também
Para entender melhor como o avanço da urbanização transformou a paisagem de Santos, assista ao vídeo do canal Santos em Movimento:
Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas, e criador do canal Santos em Movimento no YouTube.
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