O Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do mundo, elementos utilizados em equipamentos que vão dos celulares aos motores de veículos elétricos. Transformar esse potencial em desenvolvimento depende de capacidade industrial e de cuidados ambientais que começam na pesquisa mineral e continuam depois do fechamento das minas.
A importância desses materiais para a transição energética coloca uma questão prática: como ampliar sua oferta, produzir componentes de maior valor e proteger a água e os territórios onde ocorre a extração? Para responder, é preciso entender o que são as terras raras e o caminho que percorrem até chegar aos produtos.
O que são terras raras
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Eles aparecem associados a diferentes minerais e possuem propriedades magnéticas, ópticas e químicas aproveitadas pela indústria.
Apesar do nome, muitos são relativamente abundantes na crosta terrestre. A dificuldade está em encontrar concentrações aproveitáveis e separar elementos com comportamento químico semelhante. O tipo de minério, os custos de processamento e a composição do depósito influenciam a viabilidade de cada projeto.
Também é importante distinguir terras raras de minerais críticos. A primeira expressão identifica um grupo químico específico. A segunda se refere à importância econômica e aos riscos de abastecimento de determinados materiais. Lítio e níquel, por exemplo, podem integrar listas de minerais críticos, mas não são terras raras.
Onde esses elementos são utilizados
Neodímio e praseodímio entram na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. Disprósio e térbio podem ser adicionados para melhorar sua resistência à perda de magnetismo em temperaturas elevadas. Esses ímãs permitem construir motores e outros componentes compactos e eficientes.
Eles aparecem em muitos motores de veículos elétricos, em determinados geradores eólicos, em equipamentos industriais e em dispositivos eletrônicos. Há também aplicações de terras raras em catalisadores, vidros, cerâmicas e materiais de polimento.
A tecnologia escolhida faz diferença. Existem motores elétricos e geradores eólicos que funcionam sem ímãs de terras raras. No caso dos automóveis, a presença desses elementos no motor não deve ser confundida com o lítio usado em determinadas baterias: são materiais e funções diferentes.
O tamanho das reservas brasileiras
O relatório Mineral Commodity Summaries 2026, do Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, apresenta reservas brasileiras de 21 milhões de toneladas em equivalente de óxidos de terras raras. Nesse levantamento, o Brasil ocupa a segunda posição, atrás da China, com 44 milhões de toneladas.
A unidade merece atenção. O número brasileiro representa o conteúdo expresso em óxidos, e não a massa total de rochas e solos que precisaria ser movimentada. Também não corresponde à produção anual nem a um estoque de metais já separado e pronto para a indústria.
Reservas, recursos minerais e ocorrências geológicas têm significados diferentes. A descoberta de uma ocorrência ou a divulgação de um recurso estimado não transforma automaticamente uma área em mina viável. Estudos precisam demonstrar quanto pode ser recuperado, por qual processo, a que custo e com quais impactos.
No Brasil, parte dos projetos envolve argilas iônicas, nas quais os elementos ficam retidos nas superfícies de partículas de argila. A composição e as condições de extração variam entre os depósitos, exigindo avaliação própria para cada empreendimento.
Por que o processamento é tão importante
Entre a jazida e um ímã utilizado pela indústria existem várias etapas. O material extraído passa por concentração e tratamento químico. Depois, os elementos precisam ser separados, purificados e, conforme o produto desejado, transformados em metais e ligas.
Essa cadeia ajuda a explicar a disputa internacional. Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2024 a China respondeu por 91% da produção refinada mundial das terras raras utilizadas em ímãs: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. O percentual se refere a esses quatro elementos e à etapa de refino.
Para o Brasil, ampliar a extração pode gerar atividade econômica, mas desenvolver a separação e a fabricação de componentes abre outras possibilidades de produção e emprego. Em avaliação divulgada pela Agência FAPESP em 2026, o professor Fernando Landgraf, da Escola Politécnica da USP, destacou justamente os desafios tecnológicos da separação e a necessidade de avançar no controle ambiental das operações.
Isso exige investimento em pesquisa, formação profissional e instalações industriais. O volume existente no subsolo, isoladamente, não resolve essas etapas.
Os impactos ambientais da exploração
Os impactos dependem do tipo de depósito, do método de lavra, dos reagentes e das condições do território. A abertura de frentes de extração e de acessos pode remover vegetação, modificar habitats e deixar o solo exposto à erosão. Sem controle, sedimentos podem alcançar cursos d’água.
O tratamento do minério também demanda atenção. Soluções químicas utilizadas para recuperar e separar os elementos precisam ser controladas. Perdas, vazamentos ou destinação inadequada podem afetar águas superficiais e subterrâneas. A avaliação deve considerar a quantidade de água captada, o tratamento dos efluentes e o comportamento dos rejeitos.
Em alguns depósitos, os minerais de terras raras estão associados a urânio e tório. Conforme explica a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, o processamento pode concentrar esses materiais radioativos naturais nos resíduos. Sua presença e concentração precisam ser medidas; o risco radiológico não é igual em todas as jazidas.
As argilas iônicas podem permitir rotas com menos etapas de beneficiamento em determinadas condições. Isso, porém, exige comprovação no projeto específico. A alegação de menor impacto precisa vir acompanhada de dados sobre consumo de reagentes, recuperação da água, qualidade dos efluentes e estabilidade das áreas utilizadas.
Como avaliar se um projeto protege o território
Uma avaliação ambiental consistente começa pelo conhecimento da área antes da operação. Medições de qualidade da água, características do solo e condições dos ecossistemas permitem comparar o cenário inicial com os resultados posteriores e investigar alterações.
A gestão do empreendimento deve prever prevenção da erosão, controle de poeira, armazenamento adequado dos resíduos e resposta a vazamentos. A recuperação das áreas precisa ter metas verificáveis e recursos previstos, incluindo o acompanhamento necessário após o encerramento da atividade.
Como critérios de acompanhamento público, vale perguntar: quais substâncias serão monitoradas? Onde ocorrerão as coletas? Com que frequência os resultados serão divulgados? Quem responderá por medidas corretivas? Como serão considerados os usos da água e as atividades das comunidades próximas?
Essas perguntas ajudam a avaliar compromissos concretos. Empregos e arrecadação devem ser analisados junto com os custos de infraestrutura, os impactos locais e as responsabilidades de longo prazo. Promessas de sustentabilidade ganham credibilidade quando podem ser verificadas.
O papel da reciclagem
Recuperar ímãs de equipamentos descartados e aproveitar sobras da fabricação pode reduzir a necessidade de matéria-prima nova. Esse caminho depende de coleta, identificação dos componentes, desmontagem e processos capazes de conservar ou recuperar os materiais.
A reciclagem enfrenta dificuldades porque os ímãs estão incorporados a produtos variados, com diferentes tamanhos, ligas e revestimentos. O reaproveitamento pode envolver a fabricação de novos ímãs a partir do material recuperado ou a separação química dos elementos.
Também há um limite de disponibilidade: equipamentos que continuam em uso ainda não fornecem material para reciclar. Por isso, a recuperação deve ser desenvolvida junto com produtos mais duráveis, manutenção e soluções que facilitem a desmontagem. Ela pode complementar o abastecimento e reduzir desperdícios.
O que o Brasil pode ganhar com essa cadeia
As terras raras oferecem ao Brasil uma oportunidade de ampliar sua participação em setores industriais importantes. O resultado dependerá da capacidade de transformar o material extraído, desenvolver conhecimento e avaliar com rigor os efeitos de cada empreendimento.
Uma política para o setor deve ser julgada pelos resultados que entrega: componentes produzidos, empregos gerados, água protegida, áreas recuperadas e informações acessíveis à população. São esses resultados que permitem avaliar se a riqueza mineral está contribuindo para o desenvolvimento.
Sergio é formado em Gestão Ambiental e pós-graduado em Sustentabilidade e Políticas Públicas.
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Imagem de destaque: amostras de óxidos de terras raras. Foto: Peggy Greb / USDA-ARS, domínio público.
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