Há uma cena cada vez mais comum nas famílias brasileiras: filhos que já passaram dos 25 anos continuam vivendo com os pais, enquanto homens e mulheres com 50, 60 anos ou mais seguem trabalhando, criando projetos e procurando novas formas de ganhar dinheiro.
É uma contradição interessante.
De um lado, jovens que enfrentam um mercado de trabalho difícil, salários que muitas vezes não acompanham o custo de vida e uma moradia cada vez mais cara. De outro, uma geração mais velha que cresceu ouvindo que precisava trabalhar, construir alguma coisa e assumir responsabilidades desde cedo.
Mas será que a diferença é apenas econômica?
Para aprofundar a leitura: Quando o cliente vira caixa: quem ganha com a automação? e Baixada Santista paga bem? A verdade em números.
Morar com os pais não é o problema
É preciso começar fazendo uma distinção importante.
Um jovem adulto morar com os pais não significa necessariamente que seja acomodado.
Ele pode trabalhar, estudar, ajudar nas despesas da casa, guardar dinheiro e estar se preparando para conquistar sua independência. Em uma realidade de aluguel caro e dificuldade para comprar um imóvel, permanecer mais tempo na casa dos pais pode, inclusive, ser uma decisão racional.
O problema aparece quando existe algo diferente: a ausência de movimento.
Não trabalhar, não estudar, não procurar emprego, não desenvolver uma profissão e não demonstrar preocupação em construir a própria independência é muito diferente de simplesmente morar com os pais.
Nesse caso, a questão deixa de ser onde a pessoa mora e passa a ser o que ela está fazendo com a própria vida.
Quando o conforto se transforma em acomodação
Se dentro de casa estão garantidos alimentação, moradia, internet, lazer e até algum dinheiro, existe o risco de desaparecer uma das forças que historicamente empurraram muitos adultos para o mercado de trabalho: a necessidade.
Isso não significa que os pais devam abandonar os filhos ou criar dificuldades artificiais.
Significa apenas reconhecer que toda proteção tem um limite.
Quando alguém chega à vida adulta sem precisar assumir responsabilidades, pode entrar em um ciclo perigoso: não trabalha porque não precisa, não adquire experiência porque não trabalha e, com o passar dos anos, sente-se cada vez menos preparado para enfrentar o mercado.
No início da vida adulta isso pode parecer temporário.
Com o passar dos anos, começa a preocupar.
Mais adiante, as consequências podem ser muito maiores.
Por que tantos mais velhos continuam tentando?
Do outro lado estão pessoas que passaram décadas trabalhando e, mesmo depois dos 50 ou 60 anos, continuam procurando oportunidades.
Algumas abrem pequenos negócios. Outras vendem produtos pela internet, trabalham por conta própria, prestam serviços ou começam projetos digitais.

A tecnologia criou possibilidades que simplesmente não existiam quando essa geração era jovem.
Hoje, alguém pode transformar o conhecimento acumulado durante décadas em vídeos, textos, consultorias, cursos, serviços ou pequenos negócios.
Existe também uma vantagem que muitas vezes não aparece nas estatísticas: a experiência de vida.
Quem já enfrentou desemprego, crises econômicas, mudanças profissionais e dificuldades familiares pode ter desenvolvido uma capacidade maior de lidar com frustrações.
Empreender também significa errar, tentar novamente e continuar mesmo quando o resultado demora a aparecer.
O sucesso do outro incomoda?
Existe ainda um comportamento que merece reflexão.
Algumas pessoas, em vez de observar quem conseguiu alguma coisa e perguntar “o que posso aprender com isso?”, preferem diminuir a conquista alheia.
“Foi sorte.”
“Ele conhece as pessoas certas.”
“Também, com dinheiro é fácil.”
“Qualquer um consegue.”
Naturalmente, existem privilégios, oportunidades desiguais e histórias completamente diferentes. Nem todo mundo parte do mesmo lugar.
Mas transformar toda conquista alheia em sorte também pode ser uma maneira confortável de evitar uma pergunta incômoda:
O que eu estou fazendo para mudar a minha própria situação?
Criticar exige muito menos esforço do que construir.
O que dizem os estudos sobre a passagem para a vida adulta
A permanência na casa dos pais não pode ser explicada apenas por acomodação. A pesquisadora Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), organizou o estudo “Transição para a vida adulta ou vida adulta em transição?”. A obra mostra como desigualdade, dificuldades educacionais e uma entrada instável no mercado de trabalho produzem trajetórias menos lineares — inclusive casos em que o jovem sai de casa e depois retorna.
Na Psicologia, Clarissa Magalhães Rodrigues e Ida Kublikowski, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), estudaram famílias com filhos de 25 a 30 anos. No artigo “Os Pais e a Transição do Jovem para a Vida Adulta”, as pesquisadoras observaram que casamento, independência financeira e saída da casa dos pais perderam força como marcadores únicos da vida adulta. Responsabilidade e maturidade nas relações passaram a ter grande peso nessa transição.
Outro estudo, “A importância do trabalho na transição para a vida adulta”, da professora Renata Alves de Paula Monteiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), constatou que o trabalho continua sendo um importante fator de integração social e de construção da identidade adulta. Entre os entrevistados, a independência econômica também apareceu como base para a segurança emocional.
Essas pesquisas reforçam a distinção central deste artigo: morar com os pais não define acomodação. O sinal preocupante é a ausência prolongada de estudo, trabalho, procura por oportunidades, contribuição familiar e planejamento de autonomia.
Fontes e leituras:
Ipea — https://repositorio.ipea.gov.br/entities/book/d0156987-af2c-4f95-8e9e-c1d3f179b420
PUC-SP — https://doi.org/10.15448/1980-8623.2014.4.16372
UFF — https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S2318-92822014000300003&script=sci_arttext
Não é uma guerra entre gerações
Também seria injusto afirmar que os jovens de hoje são preguiçosos.
Existem milhões de jovens trabalhando, estudando, empreendendo e sustentando suas famílias. Assim como existem pessoas mais velhas completamente acomodadas.
O fenômeno não pode ser explicado simplesmente pela idade.
O que mudou foi o contexto.
O jovem atual enfrenta dificuldades que gerações anteriores não enfrentaram da mesma maneira. Ao mesmo tempo, dispõe de ferramentas e oportunidades tecnológicas que seus pais jamais tiveram quando eram jovens.
Por isso, talvez a discussão mais interessante não seja descobrir qual geração é melhor.
É entender qual comportamento estamos incentivando.
Independência também precisa ser aprendida
Pais naturalmente querem proteger seus filhos.
Mas existe uma diferença entre oferecer apoio e eliminar todas as consequências da vida adulta.
Talvez uma das maiores ajudas que uma família possa oferecer seja justamente ensinar que conforto e responsabilidade precisam caminhar juntos.
A pessoa pode continuar morando com os pais depois dos 25 anos.
Pode estar procurando emprego.
Pode estar começando novamente.
Pode não ter dinheiro para sair de casa.
Nada disso deveria ser motivo de vergonha.
Mas é importante existir algum movimento.
Estudar.
Trabalhar.
Procurar oportunidades.
Aprender alguma coisa.
Criar um projeto.
Contribuir dentro de casa.
Planejar o futuro.
Porque os pais envelhecem. As circunstâncias mudam. E chegará um momento em que cada adulto precisará responder pela própria sobrevivência.
No final, talvez a grande diferença não esteja entre jovens e velhos.
Está entre esperar que alguma coisa aconteça e começar a construir alguma coisa.
Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas, e criador do canal Santos em Movimento no YouTube.
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