Como funciona a barreira submersa de Santos e seus impactos?

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A barreira submersa de Santos é uma intervenção de engenharia costeira que busca reduzir parte da energia das ondas e influenciar o transporte de areia na Ponta da Praia. Seu funcionamento depende da relação entre a estrutura, a profundidade da água, as correntes e as condições do mar.

Para avaliar o que essa proteção pode oferecer à orla, é preciso compreender como ela foi construída, quais resultados foram observados e que limitações devem ser consideradas. O caso de Santos também ajuda a explicar por que intervenções contra a erosão exigem monitoramento e avaliação dos efeitos sobre praias vizinhas.

O projeto-piloto de 2018

Desenvolvido com participação da Unicamp, o projeto-piloto utiliza elementos geotêxteis preenchidos com areia. Sua configuração em L, com extensão superior a 500 metros, combina um eixo transversal à costa e outro aproximadamente paralelo à praia. O objetivo é interferir na energia das ondas e na movimentação dos sedimentos na Ponta da Praia. Uma estrutura submersa não funciona como muro impermeável: seu efeito depende da profundidade, geometria, condições de ondas e correntes.

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Como funciona a proteção

As ondas podem perder parte de sua energia ao passar sobre um quebra-mar submerso. Essa alteração pode favorecer a deposição de areia em alguns setores, mas também modificar os fluxos de sedimentos em áreas vizinhas. A praia é um sistema dinâmico: recebe e perde areia por transporte longitudinal, paralelo à costa, e transversal, entre a faixa de areia e a região submersa. Por isso, proteger um trecho não equivale automaticamente a recuperar toda a orla.

O que os resultados iniciais indicam

Monitoramentos divulgados pela Prefeitura em 2018 apontaram acumulação de aproximadamente 9,3 mil metros cúbicos de areia no trecho acompanhado entre janeiro e outubro daquele ano. Esse resultado é relevante para compreender o comportamento inicial da estrutura, mas não prova desempenho idêntico nos anos posteriores nem permite prever os efeitos da ampliação até o Canal 4.

O alerta técnico da pesquisa de 2024

Trabalho apresentado no XXXII Congresso de Iniciação Científica da Unicamp, em 2024, analisou cenários de modelagem hidrodinâmica do quebra-mar. O documento registra a necessidade de aperfeiçoar simulações e considerar condições reais da estrutura. Há referência a alterações na posição da crista e recalques, isto é, deslocamentos verticais por assentamento. Como a profundidade da crista influencia a transmissão das ondas, é fundamental atualizar medições e modelos. O estudo não determina, sozinho, o desempenho atual em 2026.

A proposta de ampliação até o Canal 4

Em 7 de outubro de 2026, reportagem de A Tribuna informou que a Autoridade Portuária de Santos iniciou tratativas com a Cetesb e a Prefeitura para definir o licenciamento ambiental da ampliação da barreira submersa da Ponta da Praia até a região do Canal 4. Trata-se de uma etapa de discussão institucional, não de autorização definitiva ou início das obras. A questão central é como a intervenção poderá modificar ondas, correntes e transporte de areia na Baía de Santos.

Mapa técnico da ampliação da barreira submersa entre os canais 4 e 6 em Santos
Projeto de ampliação da barreira submersa na orla de Santos, com indicação da área de proteção entre os canais 4 e 6. Imagem: Divulgação/APS.

Por que a ampliação exige cautela

Estender a barreira até o Canal 4 pode modificar a distribuição de energia das ondas, as correntes e os locais de deposição ou retirada de areia. Isso não significa que haverá erosão adicional em outras praias, mas que os efeitos precisam ser testados em cenários distintos, incluindo ressacas e marés elevadas. A avaliação deve considerar também a circulação estuarina e a influência da infraestrutura portuária.

O que deve ser avaliado no licenciamento

Uma análise ambiental robusta deve considerar hidrodinâmica, balanço sedimentar, estabilidade dos geotêxteis, efeitos sobre habitats e qualidade da água, impactos durante a execução, eventos extremos e um plano de monitoramento. Esses são pontos tecnicamente recomendáveis, não uma afirmação de que todos já foram formalmente exigidos pela Cetesb. A transparência dos estudos e das alternativas analisadas será essencial para o acompanhamento público.

A barreira resolve definitivamente a erosão?

Não há base para afirmar que uma obra isolada elimina permanentemente a erosão costeira. A evolução da linha de costa também depende da disponibilidade de sedimentos, de ressacas, da elevação do nível do mar e da ocupação urbana. Uma barreira pode integrar uma estratégia de adaptação, mas exige manutenção, avaliação periódica e articulação com outras medidas de gestão costeira.

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Para entender o tema em outras escalas, leia Conter o mar ou recuar? O futuro das cidades costeiras, Por que o mar recua tanto? Entenda o fenômeno no litoral e Como a natureza ajuda cidades costeiras a se adaptar.

Como avaliar a eficácia da proteção costeira

A eficácia de uma barreira submersa precisa ser avaliada ao longo do tempo, a partir do comportamento da praia e da própria estrutura. Em Santos, essa avaliação deve acompanhar a evolução da faixa de areia, a estabilidade dos geotêxteis e os possíveis efeitos sobre trechos vizinhos, inclusive em condições de ressaca e maré elevada.

Os resultados iniciais ajudam a compreender a resposta da praia, mas decisões de manutenção ou ampliação precisam de medições e estudos atualizados. A barreira pode integrar uma estratégia de adaptação costeira articulada com a gestão dos sedimentos e o planejamento da ocupação urbana. Para o acompanhamento público, é essencial que seus benefícios, limitações e necessidades de manutenção sejam apresentados com transparência.

Referências e documentos

Unicamp — estudo hidrodinâmico, 2024 (PDF); Artigo científico sobre o quebra-mar; Unicamp — apresentação do projeto-piloto; A Tribuna — notícia de 7/10/2026.

Sobre o autor: Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas. É criador do Santos em Movimento.


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