Quem vive no litoral provavelmente já presenciou uma cena curiosa: o mar parece desaparecer, a faixa de areia aumenta rapidamente e áreas normalmente cobertas pela água ficam expostas.
Quando o recuo é muito intenso, uma pergunta aparece quase imediatamente: pode ser um tsunami? Na maioria das vezes, não. Grandes recuos podem acontecer pela combinação entre a maré astronômica e as condições meteorológicas.
Para aprofundar a leitura: Kestrel em Santos: por que o naufrágio reaparece na praia? e Ciclone, frente fria e ressaca: qual a diferença?.
Por que o mar pode recuar tanto?
As marés astronômicas são produzidas principalmente pela atração gravitacional da Lua e do Sol sobre os oceanos. Dependendo da posição relativa desses astros, a diferença entre a maré alta e a maré baixa pode aumentar.

Mas o nível observado na costa não depende apenas da previsão astronômica. Ventos persistentes, pressão atmosférica e a passagem de sistemas meteorológicos também podem alterar o nível da água. Essa diferença é chamada de componente ou maré meteorológica.

O vento também interfere no nível do mar
Os boletins do Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas da Unisanta mostram como as condições meteorológicas podem modificar significativamente o nível previsto pela tábua de marés. Em agosto de 2026, por exemplo, o NPH registrou na região níveis cerca de 40 centímetros acima da previsão astronômica durante um evento de maré elevada.
O efeito também pode ocorrer no sentido contrário. Determinadas condições de vento favorecem a redução do nível junto à costa. Quando isso coincide com uma maré astronômica naturalmente baixa, o recuo pode ficar muito mais evidente.
Por que parece que a praia ficou muito maior?
A inclinação da praia faz diferença. Em trechos relativamente planos, uma redução vertical no nível da água pode representar um deslocamento horizontal muito maior da linha d’água. Por isso, olhando da praia, o mar pode parecer ter recuado dezenas de metros.
Isso não significa que a água simplesmente desapareceu. A posição da linha d’água responde à maré, às condições meteorológicas, às ondas e às características locais da costa.
Recuo do mar significa tsunami?
Não necessariamente. Uma maré baixa muito acentuada pode acontecer sem qualquer relação com tsunami. Mas existe uma diferença importante: um recuo súbito, excepcional e inesperado da água também pode ocorrer associado a um tsunami.
Por isso, um comportamento abrupto e fora do padrão do oceano não deve ser ignorado. Diante de uma retirada repentina e incomum da água, especialmente se houver registro de terremoto forte ou alerta das autoridades, a orientação é afastar-se da faixa costeira e procurar informações oficiais.
Também é importante lembrar que o recuo da água não é condição obrigatória para a ocorrência de um tsunami.
A Baixada Santista é monitorada
Na região, o Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas da Universidade Santa Cecília mantém modelos e dados meteoceanográficos sobre ondas e nível do mar. Os boletins permitem comparar a tábua de marés com os níveis calculados pelos modelos e os valores registrados pelos instrumentos de monitoramento.
Em 10 de agosto de 2026, por exemplo, sensores da Praticagem de São Paulo registraram nível do mar de 1,75 m na orla e 1,83 m no interior do estuário, aproximadamente 40 cm acima da tábua de marés. O dado ajuda a demonstrar quanto a componente meteorológica pode modificar o nível observado na região.
Recuo e avanço do mar não são uma contradição
Se existem estudos sobre elevação do nível médio do mar e erosão costeira, como pode o mar apresentar um grande recuo? Porque são fenômenos observados em escalas de tempo diferentes.
Uma maré baixa observada durante algumas horas é uma oscilação de curto prazo. A elevação do nível médio do mar é uma tendência analisada ao longo de períodos muito maiores. Portanto, uma faixa de areia excepcionalmente extensa durante uma maré baixa não demonstra que o nível médio do mar esteja diminuindo.
Veja o recuo do mar em Santos e Praia Grande
O Santos em Movimento já mostrou em vídeo imagens do recuo do mar na Baixada Santista e explicou os fatores que podem provocar esse fenômeno.
Entender essas diferenças ajuda a evitar alarmismo, mas também evita o erro oposto de ignorar um comportamento realmente excepcional do oceano. Marés, ventos, ondas e condições atmosféricas interagem continuamente, e a posição da água que observamos na costa é uma das manifestações mais visíveis dessa dinâmica.
Quer entender melhor as transformações do litoral e das cidades? Conheça o canal Santos em Movimento no YouTube.
Descubra mais sobre Santos em Movimento
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.