Manguezais, áreas verdes e cursos d’água podem fazer parte da proteção de uma cidade. Quando a conservação e a recuperação desses ambientes são planejadas para reduzir a vulnerabilidade das pessoas aos impactos do clima, estamos falando de adaptação baseada em ecossistemas, ou AbE.
A abordagem amplia a discussão sobre infraestrutura. Além de perguntar qual obra construir, é preciso perguntar quais funções naturais foram perdidas e quais podem ser conservadas ou recuperadas.
Para aprofundar a leitura: Conter o mar ou recuar? O futuro das cidades costeiras e Santos é vulnerável ao avanço do mar?.
O que significa adaptação baseada em ecossistemas?
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente define a AbE como uma estratégia que utiliza soluções baseadas na natureza e serviços ecossistêmicos para enfrentar os impactos climáticos. O objetivo envolve as pessoas e a conservação dos ambientes dos quais elas dependem.
As soluções baseadas na natureza são um conjunto mais amplo. A AbE tem um foco específico: reduzir a vulnerabilidade à mudança do clima. Uma área ajardinada não se torna projeto de adaptação apenas por ter plantas; precisa ter relação demonstrável com um risco e com os benefícios esperados.
Manguezais e proteção costeira
O PNUMA destaca que conservar habitats costeiros, como manguezais, pode oferecer defesa natural contra inundações. Sua publicação sobre adaptação costeira também aborda dunas, áreas úmidas, recifes e outros ecossistemas.
Isso não significa que qualquer ambiente ofereça o mesmo resultado em qualquer praia. A escolha precisa partir das características locais. Recuperar um manguezal onde ele ocorre naturalmente é uma questão diferente de propor seu plantio em uma praia aberta que não apresenta condições para esse ecossistema.
Jardins de chuva nas áreas urbanas
Os jardins de chuva são estruturas que recebem e retêm parte do escoamento, com possibilidade de infiltração conforme o projeto. A Prefeitura de Belo Horizonte descreve a necessidade de estudar declividade, posição no terreno e condições do solo para sua implantação.
Esse cuidado é relevante no litoral. A solução não deve ser escolhida apenas por uma fotografia atraente: solo saturado e água subterrânea próxima à superfície podem limitar a infiltração. A capacidade precisa ser avaliada junto com a drenagem existente.
Santos oferece um exemplo de planejamento
A Prefeitura de Santos registra o uso da AbE em ações relacionadas ao Monte Serrat e ao planejamento climático municipal. Em 2026, também apresentou oficinas técnicas sobre a abordagem como uma das frentes do Plano de Ação Climática.
Reunir equipes e capacitar profissionais são etapas de preparação. Para avaliar resultados, é necessário acompanhar projetos executados, manutenção e mudanças observadas nos riscos. A existência de um plano é um ponto de partida, não a comprovação de que uma área já está protegida.
Quais perguntas um projeto deve responder?
Qual problema será reduzido? Calor, escoamento da chuva, erosão e inundação costeira têm mecanismos diferentes. O projeto precisa indicar qual deles pretende enfrentar e em que escala.
Quem será beneficiado? A prioridade deve considerar moradores e serviços expostos, incluindo quem tem menos recursos para se recuperar de perdas. A participação local ajuda a identificar problemas que um mapa geral pode deixar de fora.
Como será acompanhado? Devem existir indicadores, responsabilidade pela manutenção e critérios de revisão. Número de mudas plantadas é informação de execução; redução de exposição é uma avaliação de resultado.
Natureza e infraestrutura precisam ser planejadas juntas
Na gestão ambiental, vale avaliar combinações entre conservação, drenagem, saneamento e intervenções de engenharia. A AbE não justifica adiar medidas urgentes de proteção nem permite prometer que toda inundação será evitada.
Seu valor está em incorporar funções ecológicas ao planejamento, com limites conhecidos e benefícios verificáveis. Para cidades costeiras, isso significa proteger ambientes naturais e, ao mesmo tempo, cuidar de como a população ocupa, utiliza e mantém o território.
Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas, e criador do Santos em Movimento.
Fontes e referências: PNUMA — adaptação baseada em ecossistemas; PNUMA — adaptação costeira baseada em ecossistemas; Prefeitura de Belo Horizonte — critérios para jardins de chuva; Prefeitura de Santos — experiência no Monte Serrat; Prefeitura de Santos — oficinas e Plano de Ação Climática.
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