Atafona perdeu cinco quarteirões para a erosão enquanto praia vizinha avança

Em um trecho do litoral do Rio de Janeiro, o mapa da cidade mudou de maneira impressionante nas últimas décadas. Ruas, imóveis e áreas anteriormente ocupadas foram alcançados por um processo contínuo de erosão costeira. Em outro ponto próximo, porém, ocorre praticamente o contrário: sedimentos se acumulam e a linha da praia avança em direção ao oceano.

Esse contraste acontece entre Atafona e Grussaí, no município de São João da Barra, no Norte Fluminense, e vem sendo acompanhado por pesquisadores há décadas.

Um estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Geomorfologia identificou que, considerando a área urbana de Atafona entre 1976 e 2019, cinco quarteirões foram completamente perdidos e outros sete ficaram parcialmente danificados.

Ao todo, 12 quadras foram atingidas durante os 43 anos analisados, evidenciando como processos costeiros persistentes podem transformar não apenas uma praia, mas também áreas urbanizadas próximas ao mar.

Um litoral que está em constante transformação

Atafona está localizada nas proximidades da desembocadura do Rio Paraíba do Sul, uma posição que torna a região especialmente interessante para compreender a interação entre rios e oceano.

Embora uma praia possa parecer uma estrutura permanente para quem a observa no cotidiano, a linha que separa continente e mar está constantemente sujeita a mudanças.

Ondas movimentam areia. Correntes transportam sedimentos paralelamente à costa. Ventos modificam dunas. Rios levam materiais do continente até regiões costeiras.

O resultado dessa combinação pode ser o avanço, a estabilidade ou o recuo da linha de costa.

Em Atafona, a tendência predominante observada nas últimas décadas é de erosão.

O tamanho da transformação em Atafona

Uma pesquisa que analisou imagens da região entre 1954 e 2019 encontrou números que ajudam a dimensionar o fenômeno.

Nesse intervalo, aproximadamente 1,03 milhão de metros quadrados foram classificados como área erodida no trecho estudado entre Atafona e Grussaí.

A taxa média de deslocamento associada ao processo erosivo foi estimada em aproximadamente 2,54 metros por ano, embora isso não signifique que a praia recue exatamente essa distância todos os anos.

A própria pesquisa ressalta que o processo não acontece continuamente nem mantém sempre a mesma intensidade.

Existem períodos de maior transformação e outros de menor alteração.

Essa diferença é importante porque fenômenos costeiros de longo prazo não devem ser interpretados a partir de uma única ressaca ou de uma fotografia isolada.

A erosão chegou à área urbana

Em Atafona, entretanto, o fenômeno ultrapassou os limites da faixa de areia e atingiu diretamente áreas ocupadas.

O levantamento referente ao período entre 1976 e 2019 calculou aproximadamente 215 mil metros quadrados de área urbana afetada.

Cinco quarteirões foram considerados completamente perdidos e outros sete sofreram danos parciais relacionados à erosão costeira e também à dinâmica das dunas.

Pesquisas anteriores já haviam registrado perdas de imóveis na região.

Um levantamento referente ao período entre 1975 e 2004 estimou a perda de 183 imóveis. Estudos posteriores também identificaram a continuidade dos impactos.

casas no mar atafona rio de janeiro

As ruínas existentes próximas à praia acabaram se tornando a representação mais visível de um processo que ocorre há várias décadas.

Mas por que Atafona sofre erosão?

Não existe uma resposta simples.

O comportamento de uma linha de costa depende da interação de diversos elementos, incluindo características das ondas, direção e intensidade dos ventos, correntes costeiras, disponibilidade de sedimentos e dinâmica da desembocadura do Rio Paraíba do Sul.

Por isso, atribuir toda a transformação observada em Atafona exclusivamente ao aumento do nível do mar seria uma simplificação.

Pesquisadores estudam há décadas as características locais do delta do Paraíba do Sul e a maneira como sedimentos são redistribuídos ao longo desse litoral.

A dinâmica sedimentar desempenha papel fundamental nessa história.

esquema equilibrio sedimentar

A areia não fica parada

Uma praia pode ser entendida como parte de um sistema em movimento.

A areia retirada de determinado trecho pelas ondas ou correntes pode ser transportada e depositada em outra área.

Esse deslocamento paralelo ao litoral é conhecido como deriva litorânea.

Estudo publicado na Revista da ANPEGE analisou justamente o comportamento de Atafona e Grussaí entre 1954 e 2019 e identificou dois setores com tendências distintas.

Enquanto Atafona apresentou forte tendência erosiva, áreas próximas de Grussaí registraram acreção sedimentar, ou seja, acúmulo de sedimentos.

É aqui que o caso se torna ainda mais interessante.

Enquanto Atafona perde terreno, Grussaí avança

Ao sul de Atafona está Grussaí.

Apesar da proximidade entre as duas localidades, o comportamento da linha de costa pode ser praticamente oposto.

Em determinados setores de Grussaí ocorre progradação.

Progradação é o avanço da linha costeira em direção ao oceano provocado pelo acúmulo de sedimentos.

No levantamento realizado entre 1954 e 2019, aproximadamente 687 mil metros quadrados foram classificados como área de progradação.

A velocidade média calculada para esse processo ficou próxima de 2,56 metros por ano.

Novamente, isso não significa que a praia avance exatamente essa distância a cada ano. São valores médios calculados a partir da comparação da linha costeira durante um período de várias décadas.

Como uma praia desaparece enquanto outra cresce?

A resposta ajuda a desfazer uma ideia bastante comum: a de que toda erosão costeira significa simplesmente que “o mar está avançando” de maneira uniforme.

A realidade é muito mais complexa.

Os estudos realizados entre Atafona e Grussaí destacam a importância do transporte longitudinal de sedimentos, associado à deriva litorânea.

Dependendo das condições de ventos, ondas e correntes, sedimentos podem ser retirados de determinados setores e transportados para outros.

Isso contribui para que partes relativamente próximas de um mesmo litoral apresentem comportamentos muito diferentes.

Em determinados momentos, a direção e a intensidade desse transporte também podem mudar.

Por isso, os pesquisadores observaram que erosão e progradação não acontecem de maneira constante durante todo o período analisado.

As dunas também fazem parte do fenômeno

Existe ainda outro elemento importante em Atafona: as dunas.

Pesquisa publicada em 2018 na Revista Brasileira de Geomorfologia analisou durante uma década a interação entre praias e dunas frontais no delta do Paraíba do Sul.

Os pesquisadores observaram que, em Atafona, sedimentos disponibilizados pelo processo erosivo também podem ser retrabalhados pelo vento.

Em determinados setores, dunas migraram em direção ao continente e alcançaram áreas próximas a edificações.

Em Grussaí, por outro lado, o comportamento foi diferente. A progradação da praia contribuiu para o avanço das dunas frontais em direção ao mar.

Mais uma vez, duas áreas próximas apresentaram respostas distintas dentro do mesmo sistema costeiro.

O fenômeno não acontece na mesma velocidade

Outro dado chama atenção.

O estudo sobre os impactos na área urbana identificou diferenças na intensidade das perdas ao longo das décadas.

Entre 1976 e 2005, seis quadras foram atingidas total ou parcialmente.

Já entre 2005 e 2019, os pesquisadores observaram uma intensificação das perdas na área analisada.

Isso mostra por que o monitoramento contínuo é fundamental.

Uma tendência histórica não significa necessariamente que a velocidade do fenômeno permanecerá igual no futuro.

Mudanças nas condições ambientais podem acelerar, reduzir ou alterar a distribuição dos processos erosivos.

Atafona é um alerta para outras cidades?

Atafona oferece importantes ensinamentos para o planejamento do litoral brasileiro, mas não deve ser usada para prever automaticamente o futuro de outras cidades costeiras.

Cada região possui características próprias.

Formato da costa, presença de rios, disponibilidade de sedimentos, direção predominante das ondas, correntes, dunas, ocupação urbana e intervenções realizadas no litoral podem modificar completamente o comportamento de uma praia.

Por isso, a existência de erosão em uma cidade não significa que ela seguirá a mesma trajetória observada em Atafona.

O próprio contraste entre Atafona e Grussaí demonstra isso.

Separadas por poucos quilômetros, as duas localidades podem apresentar tendências opostas.

Planejar uma cidade costeira exige olhar para décadas

Talvez uma das maiores lições de Atafona esteja na escala de tempo.

Para uma pessoa que visita uma praia durante alguns dias, mudanças de poucos metros podem passar despercebidas.

Quando pesquisadores comparam fotografias aéreas, mapas e imagens obtidas ao longo de 40, 50 ou 60 anos, porém, surge outra realidade.

A linha de costa pode ter mudado centenas de metros.

É justamente esse acompanhamento histórico que permite diferenciar oscilações temporárias de tendências persistentes.

Para municípios costeiros, essas informações podem auxiliar na definição de áreas adequadas para novas construções, obras de infraestrutura e políticas de adaptação.

Um laboratório natural no litoral brasileiro

Atafona se transformou em um dos casos mais conhecidos de erosão costeira do Brasil porque permite observar, em uma área relativamente pequena, diferentes processos acontecendo simultaneamente.

Existe erosão severa.

Existe movimentação de dunas.

Existe transporte de sedimentos.

E, poucos quilômetros adiante, existe progradação.

O caso mostra que a costa não é uma fronteira fixa entre terra e oceano.

Ela é um ambiente dinâmico, resultado da interação permanente entre água, areia, vento, rios e ocupação humana.

Quando cidades são construídas junto a esse ambiente, compreender sua evolução deixa de ser apenas uma questão científica.

Torna-se também uma questão de planejamento urbano, prevenção de riscos e adaptação costeira.

Fontes e referências

Machado, B. A.; Rocha, T. B.; Fernandez, G. B.; Oliveira Filho, S. R. (2024). Dinâmica da linha de costa no flanco meridional do delta do Rio Paraíba do Sul entre 1954-2018: considerações sobre o fenômeno da erosão costeira em Atafona (RJ) e diferentes métodos de análise. Revista Brasileira de Geomorfologia, v. 25, n. 1.

Vasconcelos, S. C.; Ramos, I. A.; Nunes, R. S.; Santos, R. A.; Figueiredo Jr., A. G. (2021). Dinâmica erosiva e progradacional das praias de Atafona e Grussaí (RJ), 1954-2019. Revista da ANPEGE, v. 17, n. 33.

Rocha, T. B. et al. (2018). Interação morfodinâmica entre praia e duna frontal no delta do Rio Paraíba do Sul (RJ) a partir de uma década de monitoramento. Revista Brasileira de Geomorfologia, v. 19, n. 2.

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