Casca de ovo pode ajudar a resfriar a Terra?

Uma proposta para reduzir temporariamente a temperatura do planeta está chamando atenção por um ingrediente inesperado: o carbonato de cálcio, mineral encontrado em rochas calcárias e também nas cascas de ovos. A ideia, desenvolvida pela startup americano-israelense Stardust Solutions, é fabricar partículas microscópicas e lançá-las na estratosfera para refletir uma pequena parcela da luz solar de volta ao espaço.

Apesar da comparação atraente, o projeto não prevê triturar cascas de ovos e espalhá-las no céu. Uma das partículas estudadas tem um núcleo produzido com carbonato de cálcio e uma camada externa de sílica. Outra versão é feita de sílica amorfa. A tecnologia permanece em fase experimental e ainda não foi aplicada em escala planetária.

Como a proposta tentaria resfriar o planeta

A técnica é conhecida como injeção de aerossóis estratosféricos, uma modalidade de modificação da radiação solar. O princípio busca imitar parcialmente um fenômeno observado após grandes erupções vulcânicas: partículas e gases presentes nas camadas superiores da atmosfera podem refletir parte da radiação solar e provocar um resfriamento temporário.

O Monte Pinatubo, nas Filipinas, tornou-se uma referência porque sua grande erupção de 1991 lançou dióxido de enxofre na estratosfera e foi seguida por uma queda temporária da temperatura média global. A proposta empresarial, contudo, utilizaria materiais e mecanismos diferentes e não pode ser considerada uma reprodução perfeita do efeito vulcânico.

Diagrama mostra partículas lançadas na estratosfera refletindo parte da radiação solar
Esquema ilustrativo da injeção de partículas na estratosfera para refletir parte da radiação solar. Crédito: Mrmw/Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

“Casca de ovo” é uma simplificação

O carbonato de cálcio corresponde à maior parte da composição mineral da casca do ovo, mas também é abundante no calcário e pode ser produzido industrialmente. Por isso, dizer que a empresa pretende “usar casca de ovo” é uma forma simplificada de apresentar a composição química — e não uma descrição literal do material que seria lançado.

Em estudo divulgado como preprint, ainda sujeito a avaliação científica mais ampla, pesquisadores ligados à Stardust descrevem partículas sólidas submicrométricas com propriedades projetadas para refletir radiação, permanecer na estratosfera por determinado período e reduzir reações químicas indesejadas. Os autores apresentam a sílica amorfa e o núcleo de carbonato de cálcio revestido por sílica como desenhos considerados tecnicamente promissores.

Custo é estimativa, não orçamento aprovado

A empresa estima que uma operação mundial poderia custar cerca de US$ 10 bilhões por ano, valor convertido pela imprensa brasileira para aproximadamente R$ 51 bilhões. A cifra depende do câmbio e das premissas da própria proposta; não representa um programa aprovado, contratado ou financiado por governos.

Também circula a estimativa de que um milhão de toneladas de partículas poderia produzir resfriamento próximo de 0,5°C. Esse número deve ser tratado como projeção de modelagem, não como resultado já demonstrado no mundo real. O comportamento da atmosfera, a distribuição regional dos efeitos e a duração da intervenção envolvem incertezas relevantes.

Riscos vão além da escolha do material

Mesmo que uma partícula apresente bom desempenho em laboratório, a implantação em grande escala levanta questões sobre a camada de ozônio, regimes de chuva, circulação atmosférica, impactos regionais e governança internacional. Uma intervenção desse tipo afetaria todo o planeta, enquanto seus benefícios e prejuízos poderiam não ser distribuídos igualmente.

Há ainda o chamado choque de terminação. Se uma aplicação contínua mascarasse parte do aquecimento causado pelos gases de efeito estufa e fosse interrompida de forma abrupta, a temperatura poderia subir rapidamente. A dependência de reaplicações sucessivas criaria decisões políticas e financeiras de longo prazo.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente afirma que a modificação da radiação solar continua pouco compreendida, cercada de riscos e incertezas e não substitui a redução das emissões nem a adaptação climática. Um painel de especialistas reunido pela entidade concluiu que a tecnologia ainda não está pronta para implantação em grande escala.

Pesquisa não equivale a autorização

Até o momento, a Stardust informa ter realizado testes em laboratório. Ensaios ao ar livre e qualquer tentativa de implantação dependeriam de regras, supervisão pública e acordos de governança ainda inexistentes em escala global.

A proposta ajuda a mostrar como a emergência climática estimula alternativas tecnológicas cada vez mais ousadas. Mas o fato de um material ser comum — como o carbonato de cálcio presente na casca do ovo — não torna automaticamente segura uma intervenção na atmosfera. A avaliação precisa considerar o sistema completo, seus efeitos acumulados e quem teria autoridade para iniciá-lo, controlá-lo ou interrompê-lo.

Análise ambiental — Sergio Martins

Do ponto de vista ambiental, é importante separar uma linha de pesquisa de uma solução climática comprovada. Refletir parte da radiação solar poderia reduzir temporariamente a temperatura, mas não retiraria o excesso de dióxido de carbono da atmosfera nem resolveria consequências como a acidificação dos oceanos. Uma intervenção com efeitos planetários também exigiria transparência, controle público e acordos internacionais. Portanto, a geoengenharia não deve substituir a redução das emissões nem as medidas de adaptação às mudanças climáticas.

Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas, e criador do canal Santos em Movimento no YouTube.

Fontes: estudo técnico sobre as partículas propostas; Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente; Academias Nacionais dos Estados Unidos; e reportagem que apresentou a pauta.

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