Uma proposta para reduzir temporariamente a temperatura do planeta está chamando atenção por um ingrediente inesperado: o carbonato de cálcio, mineral encontrado em rochas calcárias e também nas cascas de ovos. A ideia, desenvolvida pela startup americano-israelense Stardust Solutions, é fabricar partículas microscópicas e lançá-las na estratosfera para refletir uma pequena parcela da luz solar de volta ao espaço.
Apesar da comparação atraente, o projeto não prevê triturar cascas de ovos e espalhá-las no céu. Uma das partículas estudadas tem um núcleo produzido com carbonato de cálcio e uma camada externa de sílica. Outra versão é feita de sílica amorfa. A tecnologia permanece em fase experimental e ainda não foi aplicada em escala planetária.
Como a proposta tentaria resfriar o planeta
A técnica é conhecida como injeção de aerossóis estratosféricos, uma modalidade de modificação da radiação solar. O princípio busca imitar parcialmente um fenômeno observado após grandes erupções vulcânicas: partículas e gases presentes nas camadas superiores da atmosfera podem refletir parte da radiação solar e provocar um resfriamento temporário.
O Monte Pinatubo, nas Filipinas, tornou-se uma referência porque sua grande erupção de 1991 lançou dióxido de enxofre na estratosfera e foi seguida por uma queda temporária da temperatura média global. A proposta empresarial, contudo, utilizaria materiais e mecanismos diferentes e não pode ser considerada uma reprodução perfeita do efeito vulcânico.

“Casca de ovo” é uma simplificação
O carbonato de cálcio corresponde à maior parte da composição mineral da casca do ovo, mas também é abundante no calcário e pode ser produzido industrialmente. Por isso, dizer que a empresa pretende “usar casca de ovo” é uma forma simplificada de apresentar a composição química — e não uma descrição literal do material que seria lançado.
Em estudo divulgado como preprint, ainda sujeito a avaliação científica mais ampla, pesquisadores ligados à Stardust descrevem partículas sólidas submicrométricas com propriedades projetadas para refletir radiação, permanecer na estratosfera por determinado período e reduzir reações químicas indesejadas. Os autores apresentam a sílica amorfa e o núcleo de carbonato de cálcio revestido por sílica como desenhos considerados tecnicamente promissores.
Custo é estimativa, não orçamento aprovado
A empresa estima que uma operação mundial poderia custar cerca de US$ 10 bilhões por ano, valor convertido pela imprensa brasileira para aproximadamente R$ 51 bilhões. A cifra depende do câmbio e das premissas da própria proposta; não representa um programa aprovado, contratado ou financiado por governos.
Também circula a estimativa de que um milhão de toneladas de partículas poderia produzir resfriamento próximo de 0,5°C. Esse número deve ser tratado como projeção de modelagem, não como resultado já demonstrado no mundo real. O comportamento da atmosfera, a distribuição regional dos efeitos e a duração da intervenção envolvem incertezas relevantes.
Riscos vão além da escolha do material
Mesmo que uma partícula apresente bom desempenho em laboratório, a implantação em grande escala levanta questões sobre a camada de ozônio, regimes de chuva, circulação atmosférica, impactos regionais e governança internacional. Uma intervenção desse tipo afetaria todo o planeta, enquanto seus benefícios e prejuízos poderiam não ser distribuídos igualmente.
Há ainda o chamado choque de terminação. Se uma aplicação contínua mascarasse parte do aquecimento causado pelos gases de efeito estufa e fosse interrompida de forma abrupta, a temperatura poderia subir rapidamente. A dependência de reaplicações sucessivas criaria decisões políticas e financeiras de longo prazo.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente afirma que a modificação da radiação solar continua pouco compreendida, cercada de riscos e incertezas e não substitui a redução das emissões nem a adaptação climática. Um painel de especialistas reunido pela entidade concluiu que a tecnologia ainda não está pronta para implantação em grande escala.
Pesquisa não equivale a autorização
Até o momento, a Stardust informa ter realizado testes em laboratório. Ensaios ao ar livre e qualquer tentativa de implantação dependeriam de regras, supervisão pública e acordos de governança ainda inexistentes em escala global.
A proposta ajuda a mostrar como a emergência climática estimula alternativas tecnológicas cada vez mais ousadas. Mas o fato de um material ser comum — como o carbonato de cálcio presente na casca do ovo — não torna automaticamente segura uma intervenção na atmosfera. A avaliação precisa considerar o sistema completo, seus efeitos acumulados e quem teria autoridade para iniciá-lo, controlá-lo ou interrompê-lo.
Análise ambiental — Sergio Martins
Do ponto de vista ambiental, é importante separar uma linha de pesquisa de uma solução climática comprovada. Refletir parte da radiação solar poderia reduzir temporariamente a temperatura, mas não retiraria o excesso de dióxido de carbono da atmosfera nem resolveria consequências como a acidificação dos oceanos. Uma intervenção com efeitos planetários também exigiria transparência, controle público e acordos internacionais. Portanto, a geoengenharia não deve substituir a redução das emissões nem as medidas de adaptação às mudanças climáticas.
Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas, e criador do canal Santos em Movimento no YouTube.
Fontes: estudo técnico sobre as partículas propostas; Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente; Academias Nacionais dos Estados Unidos; e reportagem que apresentou a pauta.