A decisão de manter a Lagoa do Saboó fora da área destinada ao Porto Organizado de Santos ajuda a explicar um problema que vai muito além de uma linha desenhada no mapa. Em uma das regiões mais industrializadas e urbanizadas do litoral brasileiro, expansão portuária, ocupação urbana e conservação ambiental disputam o mesmo território.
O caso ganhou atenção porque a lagoa abriga jacarés-de-papo-amarelo e está inserida em um ambiente estuarino sensível. Mas a questão central não é simplesmente escolher entre porto e natureza. O desafio é entender por que determinados espaços apresentam restrições ambientais e como essas limitações entram no planejamento de uma infraestrutura estratégica para o país.
Para aprofundar a leitura: Água de lastro: como navios transportam espécies invasoras e Como a natureza ajuda cidades costeiras a se adaptar.
O que é a poligonal do Porto de Santos
A poligonal delimita oficialmente a área do Porto Organizado. Dentro desses limites ficam instalações, acessos e áreas vinculadas à atividade portuária e ao seu planejamento. Por isso, alterações na poligonal têm efeito direto sobre quais terrenos permanecem associados ao porto público e quais ficam fora dessa delimitação.
Em 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos atualizou novamente a poligonal do Porto de Santos. A Autoridade Portuária de Santos disponibiliza o desenho atualizado em sua área de Planejamento Portuário.
Por que a Lagoa do Saboó chama atenção

O Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica de Santos registra uma média de aproximadamente 20 jacarés-de-papo-amarelo na Lagoa do Saboó. O documento municipal relaciona a presença da espécie às condições encontradas naquele ambiente, como água, alimento e vegetação.
Esse dado muda a forma de enxergar a área. Um espaço cercado por infraestrutura urbana e portuária pode continuar desempenhando funções ecológicas relevantes. A existência de fauna, vegetação e áreas protegidas cria condicionantes que precisam ser consideradas antes de intervenções ou mudanças de uso.
Preservar a lagoa significa impedir a expansão do Porto?
Não necessariamente. O planejamento portuário envolve diferentes áreas e alternativas de ocupação. A própria estratégia da Autoridade Portuária combina expansão da capacidade com sustentabilidade e integração entre porto e cidade.
Na prática, restrições ambientais podem alterar projetos, exigir estudos, licenciamento, medidas de mitigação ou até tornar determinados usos incompatíveis com uma área específica. Isso não significa que todo o crescimento portuário seja interrompido.
Um conflito típico das cidades portuárias
Santos cresceu historicamente ao redor do estuário e do porto. Essa proximidade produz benefícios econômicos, empregos e infraestrutura, mas também concentra pressões sobre manguezais, canais, margens e outros ambientes costeiros.
Por isso, decisões como a que envolve a Lagoa do Saboó mostram que planejamento portuário e planejamento ambiental não podem ser tratados separadamente. Quanto mais escasso se torna o espaço disponível, maior é a necessidade de definir previamente onde a expansão é viável e onde a conservação deve prevalecer.
O que o caso ensina
A Lagoa do Saboó é um exemplo concreto de como biodiversidade e infraestrutura se encontram dentro da mesma cidade. O debate não deve ser reduzido à ideia de que o meio ambiente é um obstáculo ao desenvolvimento, nem à ideia de que qualquer expansão seja necessariamente incompatível com conservação.
O ponto central é planejamento baseado em informação: conhecer a fauna, as características ambientais, as regras de proteção e as necessidades logísticas antes de definir o uso de cada área.
Sobre o autor: Sergio Martins é formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas.
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