Atafona perdeu mais de 1 milhão de m² para a erosão

Ouça esta matéria

Casas destruídas, ruas interrompidas e antigas áreas urbanizadas que hoje fazem parte da faixa de praia. Atafona, distrito de São João da Barra, no Norte Fluminense, tornou-se um dos exemplos mais impressionantes de erosão costeira do Brasil.

Mas a dimensão do fenômeno vai muito além das imagens de construções abandonadas. Estudos científicos que analisaram fotografias aéreas e imagens de satélite desde a década de 1950 permitem medir quanto a linha de costa mudou. E os resultados mostram que a erosão não ocorre de maneira uniforme: existem setores onde o recuo foi muito maior e períodos em que a transformação da costa acelerou de forma significativa.

Agora, em 2026, um novo estudo técnico tenta responder uma questão que acompanha Atafona há décadas: quais intervenções são realmente capazes de reduzir os impactos da erosão sem transferir o problema para outros trechos do litoral?

Quer entender melhor as transformações do litoral e outros assuntos do Brasil e do mundo? Conheça o canal Santos em Movimento no YouTube.

Leia também: Atafona perdeu cinco quarteirões para a erosão enquanto praia vizinha avança · Conter o mar ou recuar? O futuro das cidades costeiras.

Árvores e faixa de areia junto ao mar em Atafona
Faixa costeira de Atafona (RJ), em imagem de arquivo. Foto: Crang115. CC BY-SA 3.0.

Mais de seis décadas de transformação

Um estudo sobre a dinâmica das praias de Atafona e Grussaí analisou a evolução da linha de costa entre 1954 e 2019. Durante os 65 anos considerados, aproximadamente 1,03 milhão de metros quadrados foram classificados como área erodida. Isso corresponde a mais de 100 hectares.

O recuo linear médio acumulado encontrado no estudo ficou próximo de 165 metros, enquanto em determinados pontos a retração chegou a aproximadamente 289 metros.

Ruínas de construções atingidas pela erosão costeira em Atafona, São João da Barra (RJ)
Construção atingida pela erosão em Atafona. Foto: Felipe Fittipaldi/National Geographic.

Afinal, quantos metros Atafona perde por ano?

É comum encontrar diferentes números sobre a velocidade da erosão em Atafona. Isso acontece porque não existe uma única taxa válida para toda a praia e para todos os períodos.

No levantamento referente ao período entre 1954 e 2019, a velocidade média associada à erosão ficou em aproximadamente 2,54 metros por ano. Em intervalos específicos, entretanto, o comportamento foi muito mais intenso. Entre 2016 e 2017, por exemplo, o estudo identificou velocidade média de erosão superior a 20 metros em um ano.

Outro trabalho científico, que analisou a evolução da costa entre 1954 e 2018, encontrou no setor mais crítico avaliado um recuo acumulado de aproximadamente 345 metros, equivalente a uma taxa de cerca de 5,39 metros por ano naquele perfil.

Por isso, afirmar simplesmente que “Atafona perde cinco metros de praia por ano” pode produzir uma interpretação equivocada. A velocidade depende do local e do intervalo de tempo analisado.

Enquanto Atafona recua, outros trechos avançam

Enquanto grandes áreas de Atafona apresentam erosão, setores próximos registraram crescimento da faixa costeira, fenômeno conhecido como progradação. O mesmo estudo de 1954 a 2019 identificou aproximadamente 687 mil metros quadrados de área progradada.

Esse contraste ajuda a mostrar que a areia está em constante movimento. Ondas e correntes transportam sedimentos ao longo da costa. Dessa forma, material retirado de determinado setor pode ser transportado e posteriormente depositado em outro.

O papel do rio Paraíba do Sul

A localização de Atafona é fundamental para entender o fenômeno. O distrito está junto à desembocadura do rio Paraíba do Sul, uma das principais bacias hidrográficas do Sudeste brasileiro.

Rios transportam sedimentos em direção ao oceano e participam naturalmente da formação e manutenção de deltas e praias. Ao longo da bacia do Paraíba do Sul existem reservatórios, captações de água e diferentes intervenções que alteraram sua dinâmica. Pesquisas científicas discutem a redução do transporte de água e sedimentos até a desembocadura como um dos fatores que precisam ser considerados na evolução da costa.

Mas atribuir a erosão de Atafona exclusivamente às barragens seria uma simplificação. O fenômeno resulta da interação entre regime do rio, transporte de sedimentos, ondas, ventos, correntes, marés, características naturais do delta, ocupação urbana e intervenções humanas. A elevação do nível médio do mar acrescenta uma nova variável a esse sistema.

Casas e ruas já desapareceram

Ruínas de construção sobre a areia em Atafona, São João da Barra
Ruínas em Atafona, São João da Barra (RJ), em registro de arquivo. Foto: Andrevruas. CC BY-SA 4.0.

Os impactos ultrapassaram há muito tempo a transformação física da praia. A erosão atingiu a área urbana. Levantamentos realizados em diferentes períodos contabilizaram centenas de construções afetadas ou destruídas.

Um estudo anterior registrou 183 construções destruídas distribuídas por 14 quadras. Já informações divulgadas pelo programa europeu Copernicus apontam para mais de 500 edificações atingidas pelo processo erosivo.

Os números não representam necessariamente a mesma metodologia ou o mesmo período de levantamento e, por isso, devem ser interpretados separadamente. Mas demonstram a dimensão social e urbana do fenômeno.

Relatório estadual já alertava para o problema em 2012

Em setembro de 2012, um levantamento técnico realizado pelo então Serviço Geológico do Estado do Rio de Janeiro classificou a erosão costeira como o principal problema de São João da Barra. O trabalho mapeou 15 pontos relacionados à erosão costeira em Atafona. Naquele levantamento, 45 moradias e 181 pessoas estavam associadas às áreas classificadas como sob risco.

O nível do mar acrescenta pressão

A mudança climática não iniciou o processo erosivo de Atafona. A erosão é registrada há muitas décadas e está relacionada a uma dinâmica costeira complexa. Entretanto, a elevação do nível médio do mar pode aumentar a pressão sobre áreas que já apresentam vulnerabilidade.

Documento técnico das Nações Unidas sobre elevação do nível do mar apresenta Atafona entre as localidades analisadas. Para a região, o documento indica aproximadamente 13 centímetros de elevação entre 1990 e 2020. Entre 2020 e 2050, a projeção mediana apresentada é de aproximadamente 16 centímetros adicionais, dentro do cenário considerado no relatório.

Em uma costa baixa e arenosa, centímetros de elevação vertical não devem ser interpretados simplesmente como centímetros de avanço horizontal da água. O efeito envolve alterações na posição sobre a qual ondas, marés e eventos extremos passam a atuar.

Por que não construir simplesmente um muro?

Espigões, enrocamentos, quebra-mares e outras estruturas podem alterar correntes e o transporte natural de sedimentos. Dependendo da configuração, proteger determinado setor pode contribuir para mudanças na disponibilidade de areia em outro. Por isso, intervenções desse porte exigem levantamentos oceanográficos, modelagem e avaliação dos impactos ambientais.

Novo estudo busca alternativas para Atafona

Em 2026, foi iniciada uma nova etapa para estudar possíveis soluções para os problemas de erosão costeira de Atafona e do Açu.

O Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) tem valor aproximado de R$ 5,6 milhões e duração prevista de 18 meses. O trabalho envolve uma equipe multidisciplinar com 29 especialistas.

Entre as atividades previstas estão levantamentos ambientais e sociais, estudos de campo e modelagens capazes de simular o comportamento da costa e os efeitos de diferentes alternativas. Soluções como recuperação de dunas, alimentação artificial da praia — conhecida como engordamento — e diferentes intervenções de engenharia poderão ser avaliadas.

Isso não significa que alguma dessas alternativas já tenha sido escolhida. O objetivo do estudo é justamente determinar quais soluções apresentam viabilidade técnica, ambiental e econômica.

Um alerta para o futuro das cidades costeiras

O caso de Atafona mostra por que a erosão costeira não pode ser tratada apenas depois que uma ressaca destrói uma rua ou ameaça uma construção.

Uma praia é um ambiente em permanente transformação. Rios transportam sedimentos, ondas redistribuem areia, dunas funcionam como reservas naturais e a linha de costa responde continuamente a essas forças.

Quando a ocupação urbana avança sobre esse ambiente, surge um desafio: construímos casas, ruas e infraestrutura para permanecerem no mesmo lugar, enquanto a costa pode continuar se deslocando ao longo das décadas.

Com a elevação do nível médio do mar acrescentando uma nova pressão sobre regiões costeiras, as decisões tomadas em São João da Barra poderão oferecer informações importantes para outros municípios brasileiros.

A questão, portanto, não é apenas descobrir como conter o mar. É entender onde proteger, como adaptar e até que ponto é possível manter a ocupação urbana diante de uma linha de costa que continua mudando.

Atafona já enfrenta esse dilema hoje. Outras cidades costeiras brasileiras poderão enfrentá-lo nas próximas décadas.

Sergio Martins
Gestor Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas.


Descubra mais sobre Santos em Movimento

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *