Erosão atinge 59% do litoral de Campos dos Goytacazes

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A erosão costeira está transformando parte do litoral de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, e os números ajudam a dimensionar o problema. Cerca de 59% da orla marítima do município apresenta tendência erosiva, segundo levantamento utilizado pela Defesa Civil de Campos.

Nos segmentos afetados, as taxas médias de recuo da linha de costa chegam a 3,5 metros por ano. Um dos setores mais vulneráveis possui aproximadamente 9 quilômetros, na região entre Barra do Furado e o litoral campista.

Isso não significa que 59% do município esteja sendo tomado pelo oceano. O percentual se refere à parcela da linha de costa analisada que apresenta tendência de erosão.

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Água e areia invadem vias em Campos, São João da Barra e Macaé durante ressaca
Água do mar e areia atingem vias durante ressaca no Norte Fluminense. Registros incluem Campos dos Goytacazes, São João da Barra e Macaé. Foto: Farol Propagadas/Radar SJB

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Por que a costa está recuando?

Uma das chaves para compreender o fenômeno está em Barra do Furado, na região da divisa entre Campos dos Goytacazes e Quissamã. Na desembocadura do Canal das Flechas existem estruturas conhecidas como guias-correntes. Essas obras interferem na dinâmica sedimentar e estão entre os condicionantes locais associados ao déficit de sedimentos no trecho erosivo.

Vista aérea da desembocadura do Canal das Flechas e dos guias-correntes, em Barra do Furado
Vista aérea do Canal das Flechas e dos guias-correntes, em Barra do Furado, em imagem de arquivo. Foto: Divulgação/Prefeitura de Campos, publicada pela Firjan.

Uma praia não é uma estrutura imóvel. A areia é constantemente retirada, transportada e novamente depositada pela ação das ondas e correntes. Quando esse balanço fica negativo por períodos prolongados, a linha de costa pode recuar.

Um trecho de aproximadamente 9 quilômetros

Mapa do trecho de aproximadamente 9 km entre Barra do Furado, Lagamar e Farol de São Thomé, em Campos dos Goytacazes
Trecho de aproximadamente 9 km do litoral de Campos apontado como um dos setores mais vulneráveis à erosão costeira, entre Barra do Furado e Farol de São Thomé. Fonte: Defesa Civil de Campos (2026). Base cartográfica: OpenStreetMap.

O setor mais vulnerável identificado possui cerca de 9 quilômetros, partindo da região de Barra do Furado em direção ao litoral de Campos. O problema ganha importância porque a erosão já se aproxima de residências e infraestrutura viária.

Pesquisas desenvolvidas pela Universidade Federal Fluminense (UFF) também vêm acompanhando os impactos ambientais, sociais e econômicos da erosão nessa área.

164 construções em áreas afetadas

Um projeto de pesquisa coordenado pelo professor Eduardo Bulhões, da UFF, identificou 164 construções localizadas em áreas afetadas pela erosão, somando aproximadamente 80,4 mil metros quadrados de área construída.

O levantamento inclui residências e outros tipos de edificações. Esses números mostram por que a erosão costeira não representa apenas uma transformação ambiental. Quando a linha de costa se aproxima das áreas ocupadas, o problema passa a envolver moradia, mobilidade, serviços, turismo, infraestrutura e recursos públicos.

A estrada já sente os efeitos

Um dos exemplos mais visíveis ocorre na estrada que liga a região de Farol de São Thomé a Barra do Furado. Em agosto de 2026, técnicos municipais voltaram ao trecho afetado para avaliar alternativas diante dos problemas provocados pela erosão. Entre as medidas consideradas estava a implantação de um novo acesso, desviando da área comprometida.

Para uma solução definitiva, foi mencionada uma estimativa de aproximadamente R$ 150 milhões. O histórico da região mostra que o problema não começou em 2026: episódios anteriores de erosão e danos à estrada já haviam chamado atenção em outros anos.

Construir barreiras é suficiente?

A resposta para a erosão costeira nem sempre está simplesmente em construir uma estrutura de concreto ou pedra diante do mar. Cada praia possui características próprias de ondas, correntes, sedimentos, relevo e ocupação urbana. Uma intervenção pode proteger determinado trecho e, ao mesmo tempo, alterar o transporte de sedimentos para áreas vizinhas.

Por isso, estudos e ações discutidos em Campos incluem monitoramento ambiental contínuo, planejamento territorial, estudos de viabilidade, preservação das dunas, recuperação da vegetação de restinga e avaliação de soluções baseadas na natureza.

Dunas e restingas também protegem a costa

Dunas e vegetação de restinga não devem ser vistas apenas como componentes da paisagem. Esses ambientes participam da dinâmica natural das praias e podem integrar a proteção costeira durante eventos de maior energia.

Preservar espaço para que a praia possa responder naturalmente às variações do mar é uma das questões centrais do planejamento de cidades costeiras. O desafio se torna muito maior quando estradas, casas e outras estruturas já estão instaladas próximas à linha de costa.

Campos mostra um problema que vai além do município

O caso de Campos dos Goytacazes ajuda a compreender uma questão presente em diferentes pontos do litoral brasileiro. A erosão costeira normalmente resulta da interação de diversos fatores: dinâmica natural das praias, disponibilidade de sedimentos, ressacas, intervenções humanas e ocupação das áreas próximas ao mar.

Mais do que perguntar simplesmente até onde o mar pode chegar, o caso coloca outra questão para as cidades costeiras brasileiras: como ocupar e adaptar o litoral quando a própria linha que separa a terra e o oceano está em constante movimento?


Análise de Sergio Martins
Formado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Sustentabilidade e Políticas Públicas.


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